
DEOLINDA RODRIGUES
Encruzilhada dos caminhos
Na vegetação frondosa da Terra Mãe
Um impasse permanente
Na saga cerrada
dos nossos destinos.
Limitação de fronteiras
Do pensamento
Limitação da varanda
cerrada sobre o mar tropical
Amiga irmã
Pequenina na estreiteza
Dos meus horizontes
Para ti, o meu canto de saudade
Trilhando as arenas
ardentes dum ideal
Caminhaste em frente do futuro
Para vencer a bruma
Que abafava a Terra
Teu corpo caiu na arena
Da morte!
(Espírito Santo, Alda. 1978, pp. 113-114)
REQUIEM PARA AMÍLCAR CABRAL
Chora terra bem amada
O teu filho bem amado
Morto fisicamente
Por balas assassinas
Guevara de África
te batizaram
Dias antes
Da cilada trágica
Na história da terra africana
Teu nome ímpar
apontará aos filhos
do país natal
a dignidade da tua vida
Cimentada com teu sangue
Cimentando com
o sacrifício da existência inteira
a esperança do futuro
Duma terra sem madrasta
As páginas do porvir
Contarão ao mundo
a força da tua personalidade dinâmica
ao serviço da tua inteligência
Canalizada
Para os arrozais
da parcela
do golfo enquistado
onde mãe Iva
te doou à terra
Não chores mãe Iva
A terra de África inteira
De pé
A teu lado
Saúda a figura gigante
do Grande Líder
Da África Ocidental
Terra bem amada
O sangue do herói
Será transfusão
Nos anais da tua história
Escrito em 20/ 01/73
(Espírito Santo, 1978, pp. 115-116).
ESTRELA DE ÁFRICA
Um dia já, lá vão muitos anos
Eu no balbuciar da vida…
Tu, mais adulto, Luís
Mas desconhecedor das riquezas do nosso continente
Pois os horizontes eram densos c obscuros
Nada conhecíamos sobre a África milenária…
Tu sonhavas um porvir para o teu povo
Mas partias do zero, da incógnita do futuro …
Tu disseste eu lembro bem …
«Somos um povo sem história,
Sem filosofia própria …
Tudo temos de construir … »
Anos volvidos, tu já não estavas presente junto de nós
A tua vitalidade, o amor imenso pela tua Terra
A mensagem a transmitir pela tua vontade criadora
Tinha sido vencida pela morte cruel
No silêncio imenso da vida tombada …
E paradoxalmente descortinava-se diante de nós
A possibilidade de conhecermos as nossas lendas
A filosofia do nosso povo
o seu passado, uma civilização
Sustada pela ambição do invasor
Os nossos provérbios, as vozes
De Guillen, de Césaire, Diop
A luta pelo lugar ao sol
De Jean Jacques Roumain
O alvorecer de países novos
de Ãfrica.
A luta heróica dos Argelinos
Até à vitória final
Sékou TOUl’é, Ben BeBa, N’Krumah
Patrice Lumumba
Nomes gigantes da história do nosso povo
As lutas sangrentas do Congo
E a tragédia da Nigéria dividida …
Vitórias e desacertos, irmãos
Ao longo da história do nosso povo
Após as horas da escravidão
Seria belo o coro das mãos unidas
Mas o joio espalha-se sempre por entre a Seara
Ao longo da história de todos os povos.
E os nossos desacertos são semelhantes
Às tragédias de todos os povos do mundo na fase da construção
Entretanto, irmão, uma estrela desponta
lá longe …
A nós irmãos, resta-nos sermos os sacrificados
Um futuro rasga-se.
Que esse futuro seja a história
dos nossos filhos dignificados.
A tua vontade imensa de engrandecer o continente
Está patente no homem africano
Nas plagas onde afirma
A sua presença real
Na estrada da vitória plena
Ou na arena onde o sangue irmão
Rega a terra com o sangue
dos seus filhos mártires …
Repara irmão …
«Ao longo do caminho da vitória
Tombaram já num silêncio de arrepios
Muitos nomes a juntar a milhões
Tombados desde a era das galeras
E dos grilhões da escravidão
Aos mortos tombando dia a dia
Ao longo do continente em chamas
Teu nome eu o escrevo ao lado desses mártires
(Espírito Santo, 1978, pp. 67-69)
A LEGÍTIMA DEFESA
Para vós carrascos
O perdão não tem nome.
A justiça vai soar
O sangue das vidas caídas
Nos matos da morte
Clamando justiça
É a chama da humanidade
Cantando a esperança
Num mundo sem peias
Onde a liberdade
Ê a pátria dos homens
(Espírito Santo, 1978, p. 119)
O CÂNTICO DO NOVO DIA
Juntos cantaremos
O cântico dum novo dia,
A tua voz, bem pertinho
à minha,
Iremos desbravar a terra calcinada
Levando às braçadas
O barro dos nossos morros,
A verdura dos nossos campos densos,
A água corrente das nossas ribeiras,
Para as canoas de andim
Os braços ritmados
Das lavadeiras dos nossos rios,
Na esfrega pelo pão de cada dia
As vozes dos nossos irmãos
Das praias do «gandu»
Lutando com a caleima
Em dias de tornado,
Os coros dos meninos
Das escolas de mato
As vozes ritmadas do trabalho
Nos dias calcinantes
Para erguer do nada
A vida plena
Entoando a melodia
Dum mundo sem barreiras
Tangendo marimbas
N os rifles acossados
Desfazendo miragens.
Tu, meu irmão identificado
N a luta pelo pão de teus filhos
Vais erguer em rebelião ardente
A tua bandeira vitoriosa
Exigindo ao homem
Do outro lado da linha
O pão, o amor e a liberdade
Para todos os caminhos.
Nessa hora, meu irmão
Iremos cimentar os alicerces
Das nossas vidas
E erguer do braseiro, o nosso país
De África
Num ritmo de tam tans e quissanges
A vida, a paz e a liberdade
N a grande batucada
Da pátria libertada.
(Espírito Santo, 1978, pp. 87-88)
Retirados do livro “É Nosso o Solo Sagrado da Terra”. Lisboa: Ulmeiro, 1978.
Alda Neves da Graça do Espírito Santo (1926-2010), conhecida como Alda Espírito Santo, foi uma escritora e poetisa de São Tomé e Príncipe.
Bônus: Hino de São Tomé e Príncipe, cuja letra foi escrita por Alda Espírito Santo e musicada por Manuel dos Santos Barreto de Sousa e Almeida.
