WIGVAN

Sobre mim

(Escrevi o texto abaixo dia 17/06/2020, mas eu mudei tanto nos últimos anos, fiquei tão amargo e cínico, que vou fazer algumas atualizações entre parêntesis em vermelho. Poderia simplesmente escrever outro, mas além de amargo e cínico, também fiquei preguiçoso de falar de mim mesmo, coisa que nunca foi minha preferida. E também não queria apenas corrigir o que não penso mais como se nunca tivesse existido essa pessoa doce e meiga. Mas o mundo é um moinho, etc.)

Querida pessoa,

Aceita um café?

Eu não gosto de escrever sobre mim. Pelo menos não dessa forma padrão que todas as pessoas fazem: eu trabalho com x, fiz y e z. E, muito menos, vou falar de mim na terceira pessoa. Nem ficção eu gosto de escrever na terceira pessoa.

Eu não acho que tenha grande história para contar sobre mim mesmo. Não sou um bom personagem. E me sentiria muito mal em ter que fingir que me acho mais importante do que me acho para que as pessoas me achem mais importante do que eu sou.

Eu sou uma pessoa simples, de gostos simples, de hábitos simples. (Feliz no simples *foto nas maldivas*)

Meu prato preferido é arroz com feijão e tomate. Com limão, é claro, para dar aquela alegria na alma.

Gosto de andar descalço. Gosto de sentar debaixo de uma árvore e ficar olhando para o nada por horas. Cuido de galinhas. A mais velha tem quinze anos e está cega de um olho, coitadinha. O tempo é cruel. (R.I.P Dona Cecília, a melhor galinha que já existiu) Gosto de plantar coisas, pensamentos e sementes. Minha avó dizia que eu tenho a mão verde porque as coisas gostam de nascer comigo. (Não lembro de minha avó ter dito isso, pode ser que eu tenha esquecido ou que eu tenha inventado rs.)

   eu nunca postaria essas fotos hoje em dia

Gosto de silêncio e de dias claros. Meu maior sonho é ter uma casa toda de vidro para o sol me atravessar de alto a baixo. Gosto de viajar, já viajei muito, muito. Muitas vezes de carona e sem um real no bolso. Loucuras da juventude. (Só quem se arrisca merece viver o extraordinário, etc.)

minhas partes pudendas ainda não me perdoaram por essa aventura no Saara.
 

Gosto de alturas. Meu dinheiro mais bem investido foi o que eu usei para o bungee jumping. Mas também gosto de profundezas, de forma que também achei que valeu cada centavo pagar para mergulhar.

brega até debaixo d’água, a gente é o que é e tem que aceitar, né.

Gosto de acordar cedinho para ver o sol nascer enquanto tomo um café bem quente. Sem açúcar, porque não gosto muito de doce algum.

Gosto de ouvir histórias. Gosto de conhecer pessoas. (Não gosto mais. Eu queria começar a desconhecer as pessoas para liberar um pouco de memória.) Gosto de manter pessoas na minha vida, até não gostar mais e me afastar em definitivo. (As únicas coisas que gosto de manter hoje em dia são minha saúde mental e minha conta bancária no azul.)

Gosto de estudar, principalmente coisas antigas. Meu gosto não é muito contemporâneo. (Eu gosto de dança contemporânea e de arte contemporânea, só para fazer uma ressalva.) Gilgamesh é meu texto preferido. (Eu gosto, mas não para tanto. Preferido é um exagero.) Gosto de estudar coisas para as quais ninguém dá tanto valor, também. Literatura do Timor, de Cabo Verde, de Cuba, do Paraguai. Gosto de vozes assim.

Gosto muito de arte, também. Acho que estive mais em museus do que em restaurantes e shoppings. Aliás, detesto shoppings porque eu detesto comprar coisas. Gastar dinheiro não é algo que eu faça com boa vontade. Inclusive faço umas piadas com arte no instagram. Nada revolucionário, mas dá para dar umas risadas. Ou não. rs (Não faço mais porque uma pessoa começou a pegar todo post que eu fazia e copiar e isso foi me dando muito desgosto da humanidade. E como ele é famosinho, parecia que era eu quem estava copiando.)

Gosto de conversar sobre o que eu estudei e acho que fazer essa troca é o que dá sentido para a minha vida na terra. (Continuo gostando, principalmente com alunos. Com as pessoas em geral eu costumo fingir que não sei nada – e não sei tanto assim mesmo.)

Gosto de descobrir músicas novas e sou o maníaco dos links que ninguém vai abrir porque eu já mandei 300 antes e ainda não deu tempo de ouvir tudo. Prometo que nunca mais vou mandar links, mas descobri uma banda da Nova Zelândia que é uma COISA MARAVILHOSA e você precisa ouvir. Escuta aí quando tiver um tempo. =P  (Já pensei em fazer uma conta dark só para postar músicas porque eu realmente gosto de descobrir coisas, já até trabalhei fazendo cobertura de festival)

Tenho um humor peculiar e tenho apenas duas expressões faciais. (Fiz curso de palhaçaria e desenvolvi outras expressões, agora devo ter umas cinco.) Quando estou sorrindo, acham que eu estou sendo fofo. (Eu era fofo, mas claramente estava em negação aqui). Quando estou sério, acham que eu estou sendo sexy. (Isso nunca aconteceu porque eu tenho o sexy appeal de um pé de alface. Eu estava praticando a autoestima baseada no autoengano.) É bem complexo, eu sei. Mas aos poucos você aprende a decifrar. Ou não. (A própria esfinge nesse dia, ui como sou complexo e misterioso.)

Gosto de elogiar, quando tenho vontade. Não sou de prender elogio. (Agora eu só elogio alunos porque eles precisam de incentivo e umas três pessoas que eu amo). Não tenho medo de ser mal interpretado, mas para evitar desgastes sempre deixo claro que não é cantada. (Realmente, não tenho medo, tenho TRAUMA). Gosto de demonstrar o que eu sinto e principalmente quando me sinto grato (Não e não. Demonstrar o que a gente sente é muito superestimado e até perigoso em alguns casos. E aprendi nesses últimos tempos que tudo em excesso faz mal, até gratidão.) Quando não dá para demonstrar, eu falo. Acho bom que a pessoa saiba que algo que ela fez, por menor que seja, foi importante para mim de algum modo.  (Por isso eu tenho cinco páginas de agradecimentos em fonte 09 no início de Sapatos Brancos, decerto)

oi, sumid@

Minha cor preferida é amarelo. Meu quarto é todo amarelo. Mas também gosto de laranja e rosa. As três juntas, então: perfeição. Por falar em cores, gosto de vestir roupas malucas e com a maior quantidade de cores possível. (Eu costumava dizer que minhas roupas eram malucas ou esquisitas para me defender previamente do julgamento alheio. Não faço mais isso. Minhas roupas são maravilhosas. Quem discordar, tem mau gosto. =P)

Gosto de detergente com cheiro de coco e hidratante com cheiro de algodão. (Agora eu odeio porque ambos os cheiros me lembram uma pessoa de quem eu não gosto de me lembrar..).Usava de açaí, mas enjoei. Minha flor preferida é girassol, mas também amo gérberas e gerânios. Orquídeas são lindas, também. (Bela, recatada e do campo, tão meiga que nem parece nascida neste lugar.)

Acho que agora você sabe um pouco mais sobre mim. Se quer saber coisas que eu fiz, é só entrar no lattes ou jogar meu nome completo no google. (Não faça isso ou você poderá achar um tumblr em que eu postava fotos, digamos, ousadas, e não tenho mais acesso ao e-mail e isso vai estar para sempre lá. Pelo menos as fotos estão em P&B e eu posso mentir que era um projeto de arte.) Mas isso não é o que eu quero que as pessoas saibam sobre mim antes de olharem nos meus olhos.

O mais importante é que eu escrevo coisas. É o que mais gosto de fazer na vida: pensar personagens, fabricar situações, cristalizar sentimentos. Acho que a literatura é um bom exercício de alteridade, tanto para quem lê, tanto para quem escreve. Eu aprendo muito escrevendo. Um dia posso escrever sobre isso. (Este texto era claramente para me vender como escritor, devo ter escrito isso depois de ler um desses posts de dez passos para você promover seus livros ou algo assim.)

Se você quiser ler e conversar comigo sobre, vou amar ouvir. (Mas se eu discordar da sua opinião, eu vou dizer. Escuto críticas, mas não fico calado kkk) Eu não escrevo para ficar famoso, eu escrevo para conhecer pessoas. (Meu deus do céu, como eu era sociável.) Tenho conhecido muitas por meio da escrita. Muitas são minhas amigas do coração e eu não imagino minha vida sem elas (Não só imagino como tirei todas elas da minha vida. Uma delas morreu, então não precisei tirar. Saudades, inclusive, Marco <3). Desculpe se isto aqui não é o que você queria ler. (Não me desculpe, lide com suas expectativas rs) Mas eu não sei ser diferente e quis começar a nossa relação de uma forma bem honesta. (Bem, honesto continuo sendo, embora tenha mudado bastante kkkk Mas não vamos ter uma relação apenas porque você leu meus textos, a menos que você seja sexy).

A gente se vê no ar, (Aqui vemos um adulto frustrado por não ter realizado seu sonho de ser comissário de bordo.)

W.

Carreira Literária

(O texto abaixo escrevi uns anos antes, não sei quando rs)

Minha carreira literária começou em uma tarde de calor pavorosa, quando eu escrevi o meu nome inteiro em todos os talões de cheque do Papai (vou chamá-lo de “papai” porque hoje, o dia que estou escrevendo isto, é dia dos pais e estou extremamente sensível à amorosidade paterna. E meu pai é maravilhoso mesmo.)

Meus pais foram fazer as compras do mês e qual não foi a terna surpresa de “own, que gracinha, ele aprendeu a escrever o nome” alternando com o desespero “como a gente vai fazer para pagar agora?” com picos de “MAS POR QUE VOCÊ FEZ ISSO, WIGVAN JUNIOR?” – um artista incompreendido desde a primeira infância, como você pode perceber. Praticamente um Rimbaud.

Não sei ao certo quando eu pensei que queria ser escritor. Escuto muita gente dizer que “nossa, sempre sonhei em publicar livros”, “foi quando li Shakespeare no original em francês” ou “foi depois de ler toda a coleção de clássicos russos no original em alemão”. Só sei que no meu primeiríssimo dia de aula, antes de aprender a copiar coisas do quadro ou de ser torturado com aqueles malditos cadernos de caligrafia, a professora perguntou o que todos queriam ser quando crescessem e eu respondi convicto: “Eu não quero ser, eu já sou: es-cri-tor.”

Ninguém entendeu. Provavelmente foi também a primeira vez que precisei visitar o psicólogo da escola. Mas eu era tão convicto, não apenas de que era escritor, mas de que eu era o novo sopro da literatura mundial, que acabei convencendo as pessoas aos poucos também. (Queria ter preservado essa habilidade de fazer amigos & influenciar pessoas.)

Meu primeiro grande prêmio foi ainda naquele ano de 1995. Houve um concurso cultural em toda a escola com o tema: o que é a solidão para você? O prêmio era um estojo dos Bananas de Pijamas e eu realmente precisava daquele estojo, canetinhas, tantas cores!, giz de cera, lápis de cera também!, tinha até uma lupa e uma régua e era tão lindo, tão maravilhoso, não podia mais pensar num mundo em que eu não pudesse ter um estojo dos Bananas de Pijamas.

Lembro que eu me dediquei muito a pensar sobre o que era a solidão. Agora, querida pessoa que me lê, me diga qual a finalidade de uma escola fazer isso com uma criança? O motivo de eu ter escolhido fazer faculdade de Filosofia pode ter começado aí. Não tenho a mínima ideia do que escrevi, mas o título da redação foi preservado durante os anos no certificado que a escola fez para me anunciar o grande campeão: “Solidão é ir ao banheiro com a porta aberta.”

No fim do ano recitei uma poesia sobre a árvore na festa de fim de ano. Chorei de desespero ao esquecer um verso, mas olhei para a minha mãe na plateia, lembrei das conversas que tínhamos quando ela regava as plantas e criei ali, de improviso, uma ode às arvores que morrem pelas mãos dos homens. “Um ator”, diziam. “Como ele fala as palavras com sentimento! Quanta profundidade!”, “A Globo tá te perdendo”, “Leva ele pra fazer teste pra Chiquititas”.

Palestrinha desde o nascimento

Passei a participar de todos os recitais, Casimiro de Abreu, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, Castro Alves – mas a minha maior glória foi recitar “O operário em construção” e conseguir com isso ouvir a minha primeira declaração de amor. O nome dela era Bruna, só nos falamos naquela noite, tristes tempos sem redes sociais!, mas ela me disse que me amava e que queria se casar comigo. Me despedi dando um beijo na sua mão, como eu vira o Leonardo DiCaprio fazer em Titanic e provavelmente ela deve ter suspirado por mim pelos próximos cinco dias até conhecer o novo amor da sua vida. Ah, os amores da infância! Tão fulminantes! Tão fugazes!

Oi, eu tenho um troféu. Na verdade, ficou na escola e eu chorei por um mês até superar.

Escrevi uma linda poesia para a Bruna, mas daí conheci a Rafaela, o Tiago, a Érica, o Vinícius, o Cristiano, a Angélica, o Júlio… Deve ter sido assim que eu percebi a complexa relação entre o amor e a minha escrita: eu escrevia para conseguir que as pessoas me amassem e amava as pessoas para conseguir escrever. (Só escrevi isso porque achei bonitinho, nunca escrevi para que as pessoas me amassem e nem amava as pessoas para escrever, até porque só escrevo sobre crimes, não seria muito saudável para nenhuma das partes.)

Com a idade, eu perdi aquela autoconfiança juvenil. E também a capacidade de me apaixonar por três pessoas por dia. Parei de ter coragem de dizer que eu era escritor. Nem é falta de coragem, na verdade. Talvez seja preguiça. Tenho preguiça de nomes grandes. Já dá um trabalho danado carregar meu próprio nome, prefiro não fazer uso de epítetos. Se eu pudesse escolher, em vez de ser chamado de “escritor”, “professor”, qualquer coisa grande, as pessoas se refeririam a mim como “o gostador de viagens”, “o amador de flores”, “o brincador de bichos”, “o vestidor de roupas esquisitas” ou coisas pequenas assim.

Citações preferidas:

 “Não contém glúten!”

“Cuidado! Alta tensão!”

“Calma, você também já foi um aprendiz!”

 

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