O Livro da Dor como Obra Inaugural
A obra O livro da dor, uma coletânea de cartas escritas por João Albasini e publicada após a sua morte, em 1925. É considerada por alguns críticos como a obra inaugural da literatura moçambicana. por outros, uma obra sem valor literário suficiente para pertencer ao cânone.
Após o término de seu casamento de dezenove anos com Bertha Carolina Heitor, com quem tivera dois filhos, Albasini dirige uma série de cartas para Michaela Loforte, de família abastada, as quais não obtêm resposta.
A análise de César Braga-Pinto traz um fato curioso: a rejeição da proposta teria sido resultada de um mal-entendido. O autor das cartas se declara em um bilhete escrito em ronga, e a recusa da amada, que supostamente desconhecia o idioma, é interpretada como uma rejeição à sua proposta romântica e também uma rejeição à língua:
“O autor das cartas se declara à amada numa sessão de cinema, entregando-lhe de um bilhete em ronga, ao qual, ofendida, teria respondido simplesmente: ‘sinto-lhe ódio’. Assim, é quase como que se o ódio fosse aqui menos uma reação ao conteúdo do bilhete do que a língua em que o bilhete fora escrito, já que a pretendida supostamente não compreendia o “landim”. Ou seja, o problema da expressão íntima em língua tradicional africana, por um lado, e a angústia de uma provável rejeição por parte do outro que não o compreende, estão intimamente ligados, talvez constituindo as raízes mais profundas do discurso da política do escritor-jornalista” (Braga-Pinto, 2014, p. 50).
O ensaísta, crítico literário e professor moçambicano Francisco Noa empreendeu uma exegese rigorosa da obra. Ele aponta que seu enredo e linguagem a aproximam do imaginário oitocentista, o que explicaria sua invisibilidade no século XX. O título, com o determinante “O” e o complemento “da dor”, confere à obra, em sua análise, uma dimensão trágica universal.
Ademais, Noa identifica na obra uma tensão produtiva entre um realismo que documenta o cotidiano colonial e uma hipérbole sentimental tributária do ultrarromantismo. A obra se impõe como a expressão de uma interioridade fraturada, plena de contradições e mágoas. Este efeito de real é construído por meio de notas autobiográficas, ocultação de nomes e descrições de locais, o que ancora o drama sentimental no solo histórico. A própria forma do livro desafia classificações estanques, o que leva o pesquisador a questionar: “Afinal, esta obra é uma novela, um romance, um diário ou, simplesmente, aquilo que ela se diz, cartas de amor? Ou ela não está tudo isso ao mesmo tempo?” (Noa, 2017, p. 26).
Noa sublinha, por fim, a modernidade da obra em sua dimensão autorreflexiva. O Livro da Dor é um texto sobre a própria práxis da escritura. Conforme o crítico, “um traço marcante da modernidade desta obra é ela ser um livro sobre o próprio processo de escrita, enquanto criação, ou recriação” (Noa, 2017, p. 27). Esta metalinguagem manifesta-se nos múltiplos intertextos, com destaque para as analogias e parábolas bíblicas que o narrador utiliza para dar forma à sua existência desafortunada.
O Contexto da Atividade Jornalística (1881–1925)
Embora O livro da dor seja considerado um marco, a sua relevância decorre da intensa atividade jornalística proto-nacionalista que João Albasini e seu irmão José Albasini desenvolveram, o verdadeiro motor da consciencialização da moçambicanidade.
João Albasini cofundou, com seu irmão José Albasini, os jornais O Africano (1909–1918) e O Brado Africano (fundado em 1918), que sobreviveria por décadas. Esses periódicos são justamente celebrados pelo seu papel na consciencialização da moçambicanidade.
Os jornais fundados pelos Albasini serviram como um importante foco de intelectuais moçambicanos, como é o caso de José Craveirinha, Rui Noronha e Noémia de Sousa, favorecendo a interlocução entre eles e a disseminação de suas escritas e ideias para outros países. O trabalho jornalístico, muitas vezes de oposição aos governos, foi o principal canal para que os letrados desenvolvessem as habilidades literárias e a consciência da capacidade intervencionista da literatura na ordem social e política.
O livro de Albasini, portanto, emerge no culminar dessa fase de jornalismo ativo, fornecendo uma ponte fundamental entre a escassa produção oitocentista (como a de Campos Oliveira) e a fase de Neo-realismo e Negritude que surgiria após a Segunda Guerra Mundial. A relevância de O livro da dor reside, assim, menos no seu valor estético do que na sua capacidade de inauguração e de ser a primeira obra em livro a solidificar a consciência moçambicana nas letras.
O estilo literário dos escritos jornalísticos – A crônica
Conforme analisa Tiago Henrique Sampaio (2022), a práxis discursiva de João Albasini desdobra-se no uso de heterônimos, cada qual com uma assinatura estilística e um campo de observação próprios. A persona de Chico das Pegas, que emerge em 1914, articula uma narração a partir da periferia de Lourenço Marques (atual Maputo), cuja escrita incorpora marcas de oralidade e do contexto local. De modo distinto, João das Regras, com publicações a partir de 1913, abstém-se da interpelação direta às autoridades coloniais. Sua função é a de um cronista do cotidiano, que emprega o vernáculo português e vocábulos em ronga para documentar a vida na capital, em textos que por vezes tangenciam o domínio da ficção (Cf. Sampaio, 2022, p. 26).
A atuação de Albasini nesse duplo registro, literário e jornalístico, em um período de reconfiguração da realidade colonial, permitiu a articulação entre os literatos locais e os periódicos sob sua direção. O hibridismo de sua escrita, na confluência de jornalismo e literatura, conferiu aos seus textos repercussão junto à população e às próprias autoridades portuguesas. Seus escritos podem ser classificados como crônicas, gênero de grande plasticidade e com forte vínculo à imprensa do período.
Sampaio ainda analisa que a escrita de Albasini detém uma característica de sua época: a capacidade de transmutar qualquer evento do cotidiano colonial em matéria para a literatura, o jornalismo e a história. Contudo, a sociedade moçambicana de então carecia de disposição para a reflexão sobre as denúncias e reivindicações que a tinta do jornalista veiculava (Sampaio, 2022, p. 23).
A pena de Albasini utiliza o tom jocoso como um instrumento de crítica, com um humor de corrosão direcionado aos aspectos do colonialismo que lhe causavam repulsa. Isso se nota, por exemplo, na série de crônicas Vozes do Burro, em que o autor expôs a aporia da administração colonial, que exigia a regularização de terrenos através de um prazo divulgado em um boletim oficial, inacessível a uma população nativa sem acesso a escolas.
O descontentamento do autor com práticas como o trabalho forçado e a ausência de alternativas econômicas, que impeliam os trabalhadores para as minas do Rand, também é um tema recorrente. A lógica colonial é desnudada com sarcasmo: o aborígene, na sua condição de “bruto”, prefere a emigração e o salário maior às “vantagens, altissonantes e patrióticas” de uma terra que lhe oferece apenas memórias de exploração. A interpelação final é um gesto de desmascaramento: “Colonização, ó boa amiga… Vai-te despir…”.
O tom, uma combinação de ironia e agressão, define a escrita de Albasini desde os primeiros números de O Africano. A crítica ao racismo estrutural do Estado Colonial é formulada com uma clareza brutal. O mérito cede lugar à cor como critério de valor, o que deixa ao “colonial” apenas duas vias: a aniquilação ou a revolta. A retórica alcança um ponto de máxima tensão ao sugerir as alternativas: “ou pendurar-se com uma corda no pescoço e morrer (…) ou então – segundo aconselha a razão – passear de clavina ao ombro a caçar gente branca e varar a bala todo branco que lhe passar ao alcance da arma!” (Albasini, O Africano, 07 de abril de 1909, citado por Sampaio, 2022, p. 24).
A violência da linguagem espelha a violência do sistema que descreve.
Para trabalhar o conteúdo no Ensino Fundamental e Médio
Para conferir uma versão deste artigo adaptada para alunos do Nono Ano do Ensino Fundamental, acesse: João Albasini (Moçambique) – adaptado para o 9º ano
Para conferir uma sugestão didática de como trabalhar o conteúdo em uma aula prática, confira: Plano de aula sobre João Albasini – Autor moçambicano
Bibliografia
Braga-Pinto, César; Mendonça, Fátima. João Albasini e as luzes de Nwandzengele.
Jornalismo e política em Moçambique (1908-1922). Maputo: Alcances Editores, 2014.
Noa, Francisco. Uns e outros na literatura moçambicana: ensaio. São Paulo: Editora
Kapulana, 2017.
Sampaio, Thiago Henrique. 2022. “Biografia, História E Colonialismo: O Caso De João Albasini (1876-1922) ”. Boletim Historiar 9 (01). https://periodicos.ufs.br/historiar/article/view/17474.
