Das ruas às ondas: a geografia dos afetos de Adriana Calcanhotto

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Índice

Texto escrito em 2014 para o site “A Gambiarra”

UM

O mundo que nos chega pela voz de Adriana Calcanhotto é inquietante e tem na impermanência das coisas e dos lugares a cumplicidade do sujeito que não cessa de se esculpir. Há uma mapa em cada canção, desenhado com memórias e afetos, e esses mapas são tão pessoais e íntimos que nos sentimos convidados a imprimir neles os nossos próprios passos.

É imprimindo-os que passamos pelas ruas com cores de Almodóvar e com cores de Frida Khalo (Esquadros), pelas ruas sem sentido depois do encontro com o outro (Cantada), pela rua que o outro atravessa para a direção errada (Canção sem seu nome), das ruas que voam sobre ruas (O nome da cidade). A poesia que nos chega ao corpo pelos ouvidos não é feita de metáforas grandiosas: é construída de palavras simples e que manuseamos todos os dias; ela tem a concretude das casas demolidas (Pelos Ares), dos muros escritos (Mentiras), das calçadas, das poças de água, dos cigarros comprados, do rádio que toca uma música que não deve porque ouvi-la provoca dor demais. O sentimento surge das coisas como uma moeda que encontramos por acaso: a dualidade entre inesperado e o banal, aquilo que conhecemos tão bem com palavras ordenadas de uma forma tão bela que só conseguimos reproduzir quando cantamos juntos.

Para além da busca de um amor, comum nos discos, nos filmes e nos livros, há uma busca por pessoas e lugares, mas não para que sirvam como amparos ou molduras, nos deparamos com uma complexa investigação pela identidade mesma e secreta de tudo aquilo que visitamos e tratamos como se já os soubéssemos em detalhes apenas porque suportam os nossos pés ou os nossos abraços. Saber o nome, saber o rosto, saber os cheiros, saber as cores, saber o vazio, saber o incompleto e o indefinível, saber os habitantes invisíveis – de nós mesmos e das cidades, “os meninos maus, as mulheres nuas”, os meninos que têm fome – e no fim, o que resta é a face sem nome, muda, apátrida, que habita o mar.

DOIS

No show, o mar se faz presente pelas luzes, pela cor do vestido e “naquilo que crê não deixar transparecer”, mas que se revela nos olhos – de onda. No espaço cênico, Adriana Calcanhotto oferece uma performance diferente da ousadia de quem atravessou uma passarela nua em um show da Rita Lee ou das travessuras e adereços imaginativos de sua Partimpim. Ela agora surge como uma Lady Macbeth de frente para o mar, compenetrada no seu silêncio de vida e de morte, contemplando o abismo e a solidão com desespero calculado e repartido entre doses, que são as músicas, para não furtar do público seu direito à catarse.

As músicas conhecidas são dispostas como as obras de arte são em um museu e assim, a leitura que fazemos delas é modificada pela ordem em que aparecem, pelo tom mínimo, ou pelo apagamento voluntário de palavras – como “eu vejo” foi apagada em Esquadros reforçando o “tudo em quadrado”. Aqui, aparecem alguns de seus amigos de música mais queridos e que, assim como ela, têm (ou tinham) especial carinho com aquilo que é dito: Caetano, Antônio Cícero e Waly Salomão. Além deles, há a bela parceria com Arnaldo Antunes e a regravação de Back to Black, de Amy Winehouse, e Me dê Motivos, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, inesquecível na voz de Tim Maia.

Três

Adriana Calcanhotto continua em movimento, como o marinheiro de Maresia, compondo suas várias identidades a partir dos lugares pelos quais quer passar e pelos amores que se deixa sentir. O que não muda é o seu trabalho junto a poetas e autores, diferente de quem ela mesmo se refere como músicos profissionais – o que não é de se espantar, ela mesma uma autora, com livros publicados. Entre eles, Saga Lusa (Editora Cobogó, 2008), no qual relata em tempo real uma onda, não do mar de Portugal onde estava em turnê, mas aquela onda que nos rouba da realidade e nos devolve o dom para a metafísica.

Além dos poetas, os pops. Em “Olhos de Onda”, Amy e Tim Maia. Em outros momentos de sua discografia, Bob Dylan, Claudinho e Bochecha, Cazuza e Madonna – que ela regravou por invejar a capacidade inventiva de Music, composta em uma nota só. Como aprendemos com as chamadas artes de vanguarda, a forma de dizer também é poesia, a voz, o ritmo, cada pedaço de si que é colocado ao repetir uma poesia faz com que ela seja outra, inédita, no momento em que acontece a fala. Atenta a isso, talvez, Adriana anuncia antes de cantar, o caráter inédito e irrevogável de cada instante: “a canção que eu vou fazer agora”. Não importa qual seja a biografia da canção, ela nascerá diferente sempre que Adriana emprestar a ela sua boca, transformada em alta poesia e palatável o suficiente para estar no rádio e na novela, como um dia estiveram as músicas de Vinícius.

Wigvan Pereira dos Santos

Para citar este texto:
PEREIRA DOS SANTOS, Wigvan. Título do texto. LitteræVia, Goiânia, dia, mês e ano. Disponível em: [url]. Acesso em: dia, mês e ano.

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