O livro O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde, de Wigvan Pereira dos Santos (2026), estabelece um estudo comparado de abrangência transatlântica entre as manifestações literárias do cerrado goiano e do arquipélago cabo-verdiano. A investigação articula dez autores organizados em cinco pares analíticos para examinar como formações culturais periféricas lidam com a religiosidade, a violência política, o fantástico animista, a polifonia da voz e o erotismo dissidente. A pesquisa recusa o isolamento geográfico. O pesquisador, mestre, doutor e pós-doutor em literatura, delineia as linhas de força que aproximam e distam a interioridade continental brasileira do isolamento insular atlântico.
O primeiro capítulo examina a inflexão existencialista e a dicotomia da fé na poesia romântica tardia de Leodegária de Jesus e de Eugénio Tavares. A angústia diante da finitude atravessa as formas clássicas do soneto decassílabo em ambas as produções. A poeta goiana mobiliza a imagética da Paixão de Cristo e o pavor da perda como refúgio estético para a dor de ser mulher e negra no Brasil Central pós-abolicionista. Por sua vez, o intelectual cabo-verdiano eleva a língua crioula e a morna ao estatuto de linguagem poética, sacralizando o amor humano (cretcheu) em confronto direto com a injustiça social e o silêncio divino. O rigor formal opera como contenção do desespero lírico.
O segundo capítulo aborda as matrizes da opressão política e a vinculação telúrica nos romances O Tronco, do goiano Bernardo Élis, e Chuva Braba, do cabo-verdiano Manuel Lopes. A violência institucional no sertão de Goiás manifesta-se como código de poder oligárquico e captura do aparelho forense pelo mandonismo dos coronéis. Em contraposição, o isolamento insular de Santo Antão expõe a provação ética do lavrador Mané Quim perante a seca e a tentação do desterro promovida pelo capital de retorno. As categorias da vita activa e da alienação do mundo elaboradas por Hannah Arendt iluminam o dilema entre a edificação do habitar humano e a exploração utilitária da terra. As linguagens populares de ambos os autores funcionam como resistência política contra a marginalização histórica.
O terceiro capítulo investiga o esfacelamento das fronteiras entre o humano, o animal e o insólito nos contos de Augusta Faro e de Orlanda Amarílis. A prosa da autora goiana inscreve-se nos parâmetros formais do fantástico europeu teorizado por Tzvetan Todorov, encenando a derrocada da assepsia cartesiana da protagonista Dolores diante de uma invasão de formigas portadoras de intencionalidade e escárnio. Por sua vez, a narrativa da escritora cabo-verdiana exige a mobilização do conceito decolonial de realismo animista elaborado por Harry Garuba, no qual o mundo material e o plano espiritual coexistem em uma ontologia de sobrevivência e ancestralidade. O colapso somático da pesquisadora Luna Cohen na Nigéria expõe a insuficiência do racionalismo acadêmico Ocidental perante o vitalismo orgânico africano. A figuração do bestiário desestabiliza a retórica antropocêntrica de exclusão.
O quarto capítulo analisa o colapso e a reconstituição da subjetividade nos romances Mata de Dentro, da brasileira Lari Mundim, e Crime nas Correntes d’Escritas, do cabo-verdiano Germano Almeida. A ontologia do real formulada por Clément Rosset serve de aporte para investigar como duplicações existenciais, rituais compulsivos e invenções jurídicas funcionam enquanto mecanismos de esquiva diante do acontecimento singular (idiotia). A narrativa de Mundim acompanha a ruína das garantias institucionais de uma professora pública, cuja vivência do desabrigo e da perda do lar culmina na afirmação corporal e nominativa do Professor Caio. A sátira de Almeida desmonta a vaidade do meio literário em torno do sumiço irreal de um manuscrito, revelando o atrito entre a ficção paródica e a reputação biográfica das pessoas reais. A polifonia bakhtiniana desfaz a ilusão monológica e restaura a presença vocal no tempo presente.
O quinto capítulo encerra o volume com o exame das figurações do erotismo e do desejo homoerótico nas obras do poeta goiano Ubiratan Costa e do romancista cabo-verdiano Evel Rocha. A lírica de Costa em Tarde Inventada constrói a representação do corpo masculino como índice de uma ausência inatingível, relacionando o limite do toque e do gozo com a noção de representação negativa teorizada por Jean-François Lyotard na analítica do sublime. A prosa de Rocha em Marginais projeta um “sublime do baixo” nas quebradas periféricas da Ilha do Sal, onde a dor física, a abjeção escatológica e o desamparo social convertem a experiência erótica e marginal em testemunho ríspido contra a moralidade burguesa. As duas produções recusam a redução da sexualidade ao agrado apaziguador do gosto clássico. A matéria carnal tensiona a linguagem até o ponto de esgotamento de suas normas formais.
O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde propõe uma travessia crítica entre duas tradições literárias raramente colocadas em contato sistemático. Ao aproximar autores goianos e cabo-verdianos de diferentes períodos, gêneros e horizontes estéticos, o livro desloca os estudos comparados para além das relações previsíveis entre centros culturais e antigos polos metropolitanos, encontrando no diálogo entre o cerrado e o arquipélago novas possibilidades de leitura da língua portuguesa e de suas geografias literárias.
A obra organiza-se em cinco encontros: Leodegária de Jesus e Eugénio Tavares; Bernardo Élis e Manuel Lopes; Augusta Faro e Orlanda Amarílis; Lari Mundim e Germano Almeida; Ubiratan Costa e Evel Rocha. A escolha dos pares não obedece à simples proximidade temática. Cada aproximação constitui uma hipótese crítica própria, sustentada por problemas filosóficos capazes de revelar convergências inesperadas e diferenças historicamente significativas. Religiosidade e existência, violência e pertencimento, animalidade e humanidade, duplicação do real e polifonia, erotismo e marginalidade formam um percurso que atravessa mais de um século de produção literária.
A originalidade do projeto reside precisamente na recusa de tratar Goiás e Cabo Verde como espaços isolados ou como expressões periféricas definidas apenas por sua distância em relação aos centros de consagração cultural. O livro identifica entre essas duas geografias formas particulares de elaboração da experiência histórica: a relação entre território e abandono, a persistência da religiosidade, a violência das estruturas de poder, os conflitos entre racionalidade e imaginários não ocidentais, a instabilidade da identidade e as formas dissidentes do desejo. O Atlântico deixa, assim, de funcionar como separação e passa a constituir um espaço crítico de relações.
O percurso teórico também se distingue pela pluralidade de suas interlocuções. Kierkegaard, Hannah Arendt, Michel Foucault, Clément Rosset, Mikhail Bakhtin, Jean-François Lyotard e os debates sobre o fantástico e o realismo animista fornecem instrumentos conceituais específicos para cada aproximação. A teoria não funciona como molde aplicado indistintamente aos textos literários. Cada capítulo constrói seu próprio problema e mobiliza conceitos capazes de responder às exigências particulares das obras analisadas.
Da angústia religiosa à violência política, do animal que perturba as fronteiras da humanidade ao sujeito que se multiplica diante do real, do corpo desejado à matéria degradada da marginalidade, O metafísico, o real e o sexo percorre experiências que frequentemente permanecem separadas pelas divisões tradicionais entre história literária, filosofia, teoria política e estudos da sexualidade. A unidade do volume surge justamente dessa diversidade: a literatura aparece como lugar onde as formas abstratas do pensamento encontram corpos, territórios, conflitos e experiências concretas.
O último movimento do livro sintetiza uma de suas apostas mais singulares ao aproximar a poesia homoerótica de Ubiratan Costa e o romance Marginais, de Evel Rocha, por meio da filosofia do sublime de Jean-François Lyotard. De um lado, o desejo revela a impossibilidade de possuir plenamente o corpo amado; de outro, a marginalidade transforma a fome, a violência e a abjeção numa experiência estética do excesso. Entre o sublime da intimidade e um sublime do baixo, a comparação demonstra como obras radicalmente distintas podem compartilhar uma mesma relação com os limites da representação.
Sem buscar equivalências artificiais entre autores, épocas ou contextos nacionais, O metafísico, o real e o sexo aposta na comparação como exercício de descoberta. As aproximações propostas não procuram apagar as diferenças entre Goiás e Cabo Verde. Partem delas. É nesse intervalo entre o continente e a ilha, entre o sertão e o arquipélago, entre tradições literárias que raramente ocupam o mesmo horizonte crítico, que o livro constrói sua contribuição: uma cartografia comparada da literatura em língua portuguesa, atenta às margens geográficas sem reduzir a margem a uma posição secundária no pensamento literário.
A obra oferece, desse modo, uma leitura abrangente e conceitualmente articulada de dez escritores, combinando análise textual, filosofia e literatura comparada para interrogar alguns dos problemas mais persistentes da experiência humana: a morte, a fé, a violência, o pertencimento, o corpo, a alteridade, o desejo e a própria dificuldade de representar o real.
Wilmar Filho
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