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	<title>Wigvan &#8211; Literatura e Filosofia</title>
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	<title>Wigvan &#8211; Literatura e Filosofia</title>
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		<title>Análise das propostas dos presidenciáveis para a Educação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[wigvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Oct 2026 19:14:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Wigvan Pereira dos Santos 1. O que está consolidado na educação brasileira e o que precisa ser aprimorado? O Brasil possui políticas estruturantes: Fundeb, avaliações nacionais, universidades federais, Institutos Federais, Prouni, assistência estudantil e políticas de alfabetização. A expansão da Rede Federal é um exemplo concreto. Entre 2005 e 2016, foram criados 422 campi. Em [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Wigvan Pereira dos Santos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1. O que está consolidado na educação brasileira e o que precisa ser aprimorado?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil possui políticas estruturantes: Fundeb, avaliações nacionais, universidades federais, Institutos Federais, Prouni, assistência estudantil e políticas de alfabetização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A expansão da Rede Federal é um exemplo concreto. Entre 2005 e 2016, foram criados 422 campi. Em 2026, a rede chegou a 754 unidades, com a autorização de 24 novos campi. A expansão, porém, exige investimento permanente em professores, laboratórios, assistência estudantil e manutenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na alfabetização, o indicador nacional passou de 56% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano, em 2023, para 66%, em 2025. A meta legal é chegar a pelo menos 80% até 2030. Os dados são do Inep: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/avaliacao-da-alfabetizacao</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, o desafio é ampliar o acesso sem perder de vista a aprendizagem. Os dois programas propõem continuidade em algumas áreas, mas precisam ser examinados quanto às metas, aos recursos e aos mecanismos de avaliação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2. Quais problemas os planos enfrentam concretamente e quais permanecem sem resposta suficiente?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil continua enfrentando dificuldades de aprendizagem, desigualdade de oportunidades, falta de vagas em creches e abandono escolar. No PISA 2022, apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática, ante 69% na média da OCDE (Organisation for Economic Co-operation and Development) https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2022-results-volume-i-and-ii-country-notes_ed6fbcc5-en/brazil_61690648-en.html</p>



<p class="wp-block-paragraph">O programa de Lula apresenta instrumentos já em funcionamento, como o Pé-de-Meia, a política nacional de alfabetização e a expansão dos Institutos Federais. O Pé-de-Meia alcançou 5,6 milhões de estudantes. O Ministério também registrou queda do abandono escolar entre 2022 e 2024, embora a comparação temporal, isoladamente, não demonstre quanto dessa redução foi causado pelo programa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flávio Bolsonaro propõe ampliar escolas cívico-militares, usar vouchers quando faltarem vagas públicas, expandir o ensino integral e incorporar tecnologias ao currículo. Essas propostas identificam instrumentos específicos, mas sua avaliação depende do desenho, da escala e dos resultados esperados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em ambos os casos, permanecem questões que exigem respostas mais concretas: como reduzir as desigualdades regionais de aprendizagem, ampliar creches, melhorar a infraestrutura e garantir professores em número suficiente. Uma meta nacional, por si só, não explica como redes com condições muito diferentes chegarão ao resultado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3. O que as evidências mostram sobre expansão pública, permanência, tecnologia, metas, escolas cívico-militares e vouchers?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As evidências não permitem concluir que uma estratégia isolada resolva os problemas educacionais. É preciso observar os resultados de cada política e as condições em que ela é aplicada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A expansão dos Institutos Federais criou uma rede que combina ensino médio, formação técnica, graduação, pesquisa e extensão. A trajetória de expansão está documentada pelo <a href="https://redefederal.mec.gov.br/expansao-da-rede-federal">MEC</a>. A existência dessa estrutura demonstra capacidade institucional acumulada, mas não dispensa avaliações de aprendizagem, acesso e inserção profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso da permanência escolar, o Pé-de-Meia atua sobre uma barreira econômica concreta. Em Alagoas, a taxa de abandono do ensino médio caiu de 7,5%, em 2022, para 4,1%, em 2024. O dado consta em <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/abril/apos-dois-anos-de-pe-de-meia-abandono-escolarem-alcai45">levantamento divulgado pelo MEC</a>. A série é compatível com melhora da permanência, mas não deve ser interpretada, sem avaliação causal, como prova de que toda a redução decorreu do programa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tecnologia e metas de desempenho também podem contribuir para a aprendizagem, desde que acompanhadas de formação docente, infraestrutura, objetivos pedagógicos e avaliação. Disponibilizar computadores ou estabelecer indicadores não garante, isoladamente, melhores resultados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas escolas cívico-militares, os estudos apresentam resultados diferentes conforme o modelo e o contexto. Um estudo publicado na Revista NECAT, em 2026, encontrou ausência de efeito significativo no ensino fundamental e efeito negativo no Ideb do ensino médio nas escolas analisadas em Santa Catarina (<a href="https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/revistanecat/article/view/9459">A militarização das escolas melhora o desempenho escolar? Evidências a partir da implantação das escolas cívico-militares no estado de Santa Catarina | Revista NECAT – Revista do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense</a>). Já uma pesquisa sobre escolas públicas militarizadas em Goiás, publicada no International Journal of Educational Development em 2025, identificou efeitos positivos em indicadores de aprendizagem e redução da distorção idade-série (<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0738059325000987?via%3Dihub">Evaluating the impacts of the Brazilian model for military public schools &#8211; ScienceDirect</a>). Os resultados não são diretamente intercambiáveis: tratam de contextos e desenhos de pesquisa diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto aos vouchers, a OCDE alerta que políticas de escolha escolar podem ampliar a segregação socioeconômica quando não há mecanismos adequados de regulação e equidade (<a href="https://www.oecd.org/en/publications/school-choice-and-equity_5k9fq23507vc-en.html">School Choice and Equity | OECD</a>). Isso não significa que todo programa de voucher produza o mesmo efeito, mas torna indispensável definir critérios de acesso, fiscalização e financiamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta central, portanto, é se cada instrumento tem potencial para contribuir para a educação e para reduzir desigualdades, e não apenas se oferece uma solução administrativamente atraente. Sobretudo, no tocante a repasse de auxílio financeiro, é preciso ter critérios claros para atribuição do recurso e para a exequibilidade da proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na proposta dos vouchers feita por Flávio Bolsonaro, há um critério geral de atribuição, mas o plano não detalha suficientemente as regras de concessão. O programa prevê voucher-creche para famílias que não consigam vaga na rede pública, permitindo o acesso a instituições privadas credenciadas até surgir uma vaga pública. A finalidade declarada é evitar que a falta de creche impeça os responsáveis de trabalhar, estudar ou empreender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O plano, porém, não esclarece de maneira suficientemente específica alguns pontos importantes. Como será comprovada a inexistência de vaga pública e a posição da criança na fila? Haverá prioridade por renda, deficiência ou vulnerabilidade social? Qual será o valor do voucher e como será calculado? Quais serão os critérios de credenciamento e fiscalização das instituições privadas? Como serão controlados os custos e garantida a continuidade do atendimento?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O critério de acesso está estabelecido, a falta de vaga pública, mas faltam regras operacionais detalhadas para avaliar a abrangência, o custo e a equidade do benefício. Isso não significa que essas regras não possam ser estabelecidas posteriormente; significa que o programa eleitoral não as especifica suficientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Pé-de-Meia já está implementado, então é possível falar com mais assertividade sobre ele. Trata-se de um incentivo financeiro para estudantes de baixa renda matriculados no ensino médio público. Seus critérios estão definidos em legislação e regulamentação, e não dependem de uma seleção discricionária de cada escola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os critérios gerais de elegibilidade são:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Estar matriculado no ensino médio público regular, com idade entre 14 e 24 anos; ou na Educação de Jovens e Adultos (EJA), entre 19 e 24 anos.</li>



<li>Pertencer a família inscrita no Cadastro Único (CadÚnico), observados os critérios de renda e a data de referência cadastral aplicáveis à edição do programa.</li>



<li>Ter CPF regular.</li>



<li>Cumprir a frequência escolar mínima de 80%.</li>



<li>Para receber os incentivos correspondentes, cumprir também as condições de aprovação e conclusão e, no caso do adicional do Enem, participar do exame no ano de conclusão.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">O total pode chegar a R$ 9.200 ao longo do ensino médio. A parcela de conclusão fica depositada em poupança e só pode ser retirada após a conclusão dessa etapa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença central entre os dois programas é que o Pé-de-Meia tem requisitos públicos de elegibilidade, condições de pagamento e valores definidos, até porque já foi implementado. O estudante elegível é identificado pelo cruzamento de dados administrativos, sem necessidade de disputar uma seleção individual para obter o benefício.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, não é exigido pelo TSE que um programa eleitoral tenha um nível maior de detalhamento, o detalhamento, quando é apresentado, é na fase de execução. Isso impede que avaliemos com mais assertividade. Além de professor, sou produtor cultural. Para submeter um projeto a um edital de financiamento, mesmo para concorrer a verbas pequenas, é preciso detalhar cada etapa da execução de forma concreta, os profissionais que contribuirão, a forma em que cada centavo será aplicado. Sem esse plano de execução ou mesmo um detalhamento administrativo mais enxuto, que não são exigidos, os eleitores precisam confiar que o candidato conseguirá executar o que prometeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando criticamos alguma imprecisão nos programas, os candidatos se defendem dizendo que um programa precisa apresentar apenas prioridades, objetivos e diretrizes. Outros, dizem que a população não tem capacidade de entender essas informações técnicas, então seria sobrecarregá-la de algo desnecessário. O certo é que o TSE não exige esse detalhamento, mas isso não significa que qualquer promessa possa ser apresentada sem escala, meta ou indicação de viabilidade. Os candidatos devem ser questionados sobre quais problemas determinada medida pretende resolver, por que aquela política deveria funcionar, qual resultado espera alcançar e, pelo menos em termos gerais, quais recursos e instrumentos serão necessários. Isso deveria ser mais pontuado, tanto nos programas escrito, quanto nas peças de divulgação, nos debates e nas falas públicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um bom programa deveria permitir ao eleitor responder a cinco perguntas:</p>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li><strong>Qual problema o candidato identifica?</strong></li>



<li><strong>O que pretende fazer para enfrentá-lo?</strong></li>



<li><strong>Qual resultado pretende alcançar?</strong></li>



<li><strong>Qual é a prioridade daquela medida dentro do governo?</strong></li>



<li><strong>Há alguma indicação de como pretende viabilizá-la?</strong></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">Não se espera de um programa eleitoral um plano operacional detalhado. Mas se espera que ele apresente objetivos suficientemente concretos para que o eleitor possa avaliar a escala da promessa, suas prioridades e sua viabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É razoável que esteja claro no programa, por exemplo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas pessoas uma medida pretende alcançar? Em quanto tempo? Com que ordem de grandeza de recursos? Como a execução será acompanhada e avaliada?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso vale para os dois candidatos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomando como exemplo a <strong>expansão dos Institutos Federais para 111 novos campi, deveria estar claro para o eleitor:</strong> qual é a estimativa de investimento necessária, em quanto tempo esses campi serão construídos, como serão financiados os custos permanentes de professores, técnicos, laboratórios e assistência estudantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomando a proposta dos vouchers de Flávio Bolsonaro como exemplo, o eleitor deveria ser capaz de entender: como será calculado o valor, o que acontecerá em municípios onde não houver escolas privadas suficientes para absorver a demanda, como será o repasse, com quais critérios, quantas pessoas ele pretende atender, de onde virá o recurso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Central das Creches do Brasil estimou que atender 2,5 milhões de crianças a R$ 950 mensais custaria R$ 28,5 bilhões por ano. Essa simulação da entidade permite perceber que o tamanho do investimento que será necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O programa identifica o problema, mas não apresenta os parâmetros necessários para estimar a cobertura, o custo ou a capacidade de execução da política. Isso não impede que tais regras sejam estabelecidas posteriormente e sim que não podem ser extraídas do documento eleitoral atual. No entanto, os eleitores deveriam conseguir, antes da eleição, avaliar a <strong>coerência, a consistência e a verificabilidade</strong> das promessas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>4. Quais propostas são viáveis e o que precisa melhorar na execução?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A viabilidade depende de financiamento, capacidade administrativa e coordenação federativa. A União não administra diretamente a maioria das escolas de educação básica: municípios têm atuação prioritária na educação infantil e no ensino fundamental; estados, no ensino fundamental e principalmente no ensino médio; e a União coordena políticas nacionais, presta assistência técnica e financeira e mantém a rede federal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Políticas já institucionalizadas, como o Fundeb, o Pé-de-Meia e a Rede Federal, contam com estruturas administrativas existentes. Isso não elimina desafios de orçamento, execução e avaliação, mas significa que há mecanismos que podem ser aperfeiçoados sem começar do zero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Propostas novas ou de grande escala — como vouchers, ampliação de modelos de gestão escolar e mudanças na governança das universidades — precisam esclarecer custos, responsabilidades, regras de implementação e critérios de avaliação. No caso da expansão dos Institutos Federais, por exemplo, construir um campus é apenas uma etapa: é necessário assegurar recursos para seu funcionamento continuado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os dois programas, quatro perguntas permitem avaliar a viabilidade sem exigir um plano operacional completo:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Qual problema a proposta pretende resolver?</li>



<li>Qual é a população que será atendida e em que escala?</li>



<li>Como serão financiados os custos iniciais e permanentes?</li>



<li>Quais indicadores permitirão verificar os resultados e corrigir problemas?</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">A execução também exige respeitar o regime de colaboração entre União, estados e municípios. Nenhum governo federal consegue melhorar sozinho todas as redes de ensino. O resultado depende da combinação entre financiamento, capacidade local, continuidade das políticas e avaliação pública.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os documentos oficiais de ambos os candidatos estão reunidos pelo <a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-segundo-turno">Tribunal Superior Eleitoral</a>. A comparação mais informativa é verificar, em cada proposta, o que já possui experiência acumulada, o que depende de nova estrutura e quais resultados podem ser efetivamente medidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><br>1. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Avaliação da alfabetização. Brasília, DF: Inep. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/avaliacao-da-alfabetizacao">https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/avaliacao-da-alfabetizacao</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">2. BRASIL. Ministério da Educação. Expansão da Rede Federal. Brasília, DF: MEC. Disponível em: <a href="https://redefederal.mec.gov.br/expansao-da-rede-federal">https://redefederal.mec.gov.br/expansao-da-rede-federal</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">3. BRASIL. Ministério da Educação. Após dois anos de Pé-de-Meia, abandono escolar em AL cai 45%. Brasília, DF: MEC, 1 abr. 2026. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/abril/apos-dois-anos-de-pe-de-meia-abandono-escolarem-alcai45">https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/abril/apos-dois-anos-de-pe-de-meia-abandono-escolarem-alcai45</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">4. BRASIL. Ministério da Educação. Pé-de-Meia. Brasília, DF: MEC. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/pe-de-meia/pe-de-meia">https://www.gov.br/mec/pt-br/pe-de-meia/pe-de-meia</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">5. BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Propostas de governo dos candidatos ao cargo de Presidente da República — Eleições 2026 — segundo turno. Brasília, DF: TSE. Disponível em: <a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-segundo-turno">https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-segundo-turno</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">6. BOLSONARO, Flávio. Plano de governo: Para o Brasil Vencer o Atraso. [S. l.]: Flávio Bolsonaro, 2026. Disponível em: <a href="https://www.flaviobolsonaro.com.br/plano-de-governo/leitura">https://www.flaviobolsonaro.com.br/plano-de-governo/leitura</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">7. HEINEN, Vicente Loeblein; MATTEI, Lauro; MULLINARI, Mauricio. A militarização das escolas melhora o desempenho escolar? Evidências a partir da implantação das escolas cívico-militares no estado de Santa Catarina. Revista NECAT, 2026. Disponível em: <a href="https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/revistanecat/article/view/9459">https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/revistanecat/article/view/9459</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">8. MUSSET, Pauline. School choice and equity: current policies in OECD countries and a literature review. Paris: OECD Publishing, 2012. (OECD Education Working Papers, n. 66). DOI: <a href="https://doi.org/10.1787/5k9fq23507vc-en">https://doi.org/10.1787/5k9fq23507vc-en</a>. Disponível em: <a href="https://www.oecd.org/en/publications/school-choice-and-equity_5k9fq23507vc-en.html">https://www.oecd.org/en/publications/school-choice-and-equity_5k9fq23507vc-en.html</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">9. OECD. PISA 2022 results: country note — Brazil. Paris: OECD, 2023. Disponível em: <a href="https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2022-results-volume-i-and-ii-country-notes_ed6fbcc5-en/brazil_61690648-en.html">https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2022-results-volume-i-and-ii-country-notes_ed6fbcc5-en/brazil_61690648-en.html</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">10. EVALUATING the impacts of the Brazilian model for military public schools. International Journal of Educational Development, v. 116, jul. 2025, art. 103300. DOI: <a href="https://doi.org/10.1016/j.ijedudev.2025.103300">https://doi.org/10.1016/j.ijedudev.2025.103300</a>. Disponível em: <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0738059325000987">https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0738059325000987</a>. Acesso em: 9 out. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Download gratuito do livro &#8220;O metafísico, o real e o sexo&#8221; e Suplemento pedagógico</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 17:39:05 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[arendt]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O livro &#8220;O metafísico, o real e o sexo&#8221; O livro O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde, de Wigvan Pereira dos Santos (2026), estabelece um estudo comparado de abrangência transatlântica entre as manifestações literárias do cerrado goiano e do arquipélago cabo-verdiano. A investigação articula dez [&#8230;]</p>
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<h2 class="wp-block-heading">O livro &#8220;O metafísico, o real e o sexo&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro <em>O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde</em>, de Wigvan Pereira dos Santos (2026), estabelece um estudo comparado de abrangência transatlântica entre as manifestações literárias do cerrado goiano e do arquipélago cabo-verdiano. A investigação articula dez autores organizados em cinco pares analíticos para examinar como formações culturais periféricas lidam com a religiosidade, a violência política, o fantástico animista, a polifonia da voz e o erotismo dissidente. A pesquisa recusa o isolamento geográfico. O pesquisador, mestre, doutor e pós-doutor em literatura, delineia as linhas de força que aproximam e distam a interioridade continental brasileira do isolamento insular atlântico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro capítulo examina a inflexão existencialista e a dicotomia da fé na poesia romântica tardia de Leodegária de Jesus e de Eugénio Tavares. A angústia diante da finitude atravessa as formas clássicas do soneto decassílabo em ambas as produções. A poeta goiana mobiliza a imagética da Paixão de Cristo e o pavor da perda como refúgio estético para a dor de ser mulher e negra no Brasil Central pós-abolicionista. Por sua vez, o intelectual cabo-verdiano eleva a língua crioula e a morna ao estatuto de linguagem poética, sacralizando o amor humano (<em>cretcheu</em>) em confronto direto com a injustiça social e o silêncio divino. O rigor formal opera como contenção do desespero lírico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo capítulo aborda as matrizes da opressão política e a vinculação telúrica nos romances <em>O Tronco</em>, do goiano Bernardo Élis, e <em>Chuva Braba</em>, do cabo-verdiano Manuel Lopes. A violência institucional no sertão de Goiás manifesta-se como código de poder oligárquico e captura do aparelho forense pelo mandonismo dos coronéis. Em contraposição, o isolamento insular de Santo Antão expõe a provação ética do lavrador Mané Quim perante a seca e a tentação do desterro promovida pelo capital de retorno. As categorias da <em>vita activa</em> e da alienação do mundo elaboradas por Hannah Arendt iluminam o dilema entre a edificação do habitar humano e a exploração utilitária da terra. As linguagens populares de ambos os autores funcionam como resistência política contra a marginalização histórica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O terceiro capítulo investiga o esfacelamento das fronteiras entre o humano, o animal e o insólito nos contos de Augusta Faro e de Orlanda Amarílis. A prosa da autora goiana inscreve-se nos parâmetros formais do fantástico europeu teorizado por Tzvetan Todorov, encenando a derrocada da assepsia cartesiana da protagonista Dolores diante de uma invasão de formigas portadoras de intencionalidade e escárnio. Por sua vez, a narrativa da escritora cabo-verdiana exige a mobilização do conceito decolonial de realismo animista elaborado por Harry Garuba, no qual o mundo material e o plano espiritual coexistem em uma ontologia de sobrevivência e ancestralidade. O colapso somático da pesquisadora Luna Cohen na Nigéria expõe a insuficiência do racionalismo acadêmico Ocidental perante o vitalismo orgânico africano. A figuração do bestiário desestabiliza a retórica antropocêntrica de exclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quarto capítulo analisa o colapso e a reconstituição da subjetividade nos romances <em>Mata de Dentro</em>, da brasileira Lari Mundim, e <em>Crime nas Correntes d&#8217;Escritas</em>, do cabo-verdiano Germano Almeida. A ontologia do real formulada por Clément Rosset serve de aporte para investigar como duplicações existenciais, rituais compulsivos e invenções jurídicas funcionam enquanto mecanismos de esquiva diante do acontecimento singular (<em>idiotia</em>). A narrativa de Mundim acompanha a ruína das garantias institucionais de uma professora pública, cuja vivência do desabrigo e da perda do lar culmina na afirmação corporal e nominativa do Professor Caio. A sátira de Almeida desmonta a vaidade do meio literário em torno do sumiço irreal de um manuscrito, revelando o atrito entre a ficção paródica e a reputação biográfica das pessoas reais. A polifonia bakhtiniana desfaz a ilusão monológica e restaura a presença vocal no tempo presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quinto capítulo encerra o volume com o exame das figurações do erotismo e do desejo homoerótico nas obras do poeta goiano Ubiratan Costa e do romancista cabo-verdiano Evel Rocha. A lírica de Costa em <em>Tarde Inventada</em> constrói a representação do corpo masculino como índice de uma ausência inatingível, relacionando o limite do toque e do gozo com a noção de representação negativa teorizada por Jean-François Lyotard na analítica do sublime. A prosa de Rocha em <em>Marginais</em> projeta um &#8220;sublime do baixo&#8221; nas quebradas periféricas da Ilha do Sal, onde a dor física, a abjeção escatológica e o desamparo social convertem a experiência erótica e marginal em testemunho ríspido contra a moralidade burguesa. As duas produções recusam a redução da sexualidade ao agrado apaziguador do gosto clássico. A matéria carnal tensiona a linguagem até o ponto de esgotamento de suas normas formais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde</em></strong> propõe uma travessia crítica entre duas tradições literárias raramente colocadas em contato sistemático. Ao aproximar autores goianos e cabo-verdianos de diferentes períodos, gêneros e horizontes estéticos, o livro desloca os estudos comparados para além das relações previsíveis entre centros culturais e antigos polos metropolitanos, encontrando no diálogo entre o cerrado e o arquipélago novas possibilidades de leitura da língua portuguesa e de suas geografias literárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra organiza-se em cinco encontros: Leodegária de Jesus e Eugénio Tavares; Bernardo Élis e Manuel Lopes; Augusta Faro e Orlanda Amarílis; Lari Mundim e Germano Almeida; Ubiratan Costa e Evel Rocha. A escolha dos pares não obedece à simples proximidade temática. Cada aproximação constitui uma hipótese crítica própria, sustentada por problemas filosóficos capazes de revelar convergências inesperadas e diferenças historicamente significativas. Religiosidade e existência, violência e pertencimento, animalidade e humanidade, duplicação do real e polifonia, erotismo e marginalidade formam um percurso que atravessa mais de um século de produção literária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A originalidade do projeto reside precisamente na recusa de tratar Goiás e Cabo Verde como espaços isolados ou como expressões periféricas definidas apenas por sua distância em relação aos centros de consagração cultural. O livro identifica entre essas duas geografias formas particulares de elaboração da experiência histórica: a relação entre território e abandono, a persistência da religiosidade, a violência das estruturas de poder, os conflitos entre racionalidade e imaginários não ocidentais, a instabilidade da identidade e as formas dissidentes do desejo. O Atlântico deixa, assim, de funcionar como separação e passa a constituir um espaço crítico de relações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O percurso teórico também se distingue pela pluralidade de suas interlocuções. Kierkegaard, Hannah Arendt, Michel Foucault, Clément Rosset, Mikhail Bakhtin, Jean-François Lyotard e os debates sobre o fantástico e o realismo animista fornecem instrumentos conceituais específicos para cada aproximação. A teoria não funciona como molde aplicado indistintamente aos textos literários. Cada capítulo constrói seu próprio problema e mobiliza conceitos capazes de responder às exigências particulares das obras analisadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da angústia religiosa à violência política, do animal que perturba as fronteiras da humanidade ao sujeito que se multiplica diante do real, do corpo desejado à matéria degradada da marginalidade, O metafísico, o real e o sexo percorre experiências que frequentemente permanecem separadas pelas divisões tradicionais entre história literária, filosofia, teoria política e estudos da sexualidade. A unidade do volume surge justamente dessa diversidade: a literatura aparece como lugar onde as formas abstratas do pensamento encontram corpos, territórios, conflitos e experiências concretas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O último movimento do livro sintetiza uma de suas apostas mais singulares ao aproximar a poesia homoerótica de Ubiratan Costa e o romance Marginais, de Evel Rocha, por meio da filosofia do sublime de Jean-François Lyotard. De um lado, o desejo revela a impossibilidade de possuir plenamente o corpo amado; de outro, a marginalidade transforma a fome, a violência e a abjeção numa experiência estética do excesso. Entre o sublime da intimidade e um sublime do baixo, a comparação demonstra como obras radicalmente distintas podem compartilhar uma mesma relação com os limites da representação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem buscar equivalências artificiais entre autores, épocas ou contextos nacionais, <strong><em>O metafísico, o real e o sexo</em></strong> aposta na comparação como exercício de descoberta. As aproximações propostas não procuram apagar as diferenças entre Goiás e Cabo Verde. Partem delas. É nesse intervalo entre o continente e a ilha, entre o sertão e o arquipélago, entre tradições literárias que raramente ocupam o mesmo horizonte crítico, que o livro constrói sua contribuição: uma cartografia comparada da literatura em língua portuguesa, atenta às margens geográficas sem reduzir a margem a uma posição secundária no pensamento literário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra oferece, desse modo, uma leitura abrangente e conceitualmente articulada de dez escritores, combinando análise textual, filosofia e literatura comparada para interrogar alguns dos problemas mais persistentes da experiência humana: a morte, a fé, a violência, o pertencimento, o corpo, a alteridade, o desejo e a própria dificuldade de representar o real.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">Wilmar Filho</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-style:italic;font-weight:800">PARA LER GRATUITAMENTE O LIVRO:</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Para adquirir a versão impressa, acesse: <a href="https://loja.uiclap.com/titulo/ua201635/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O metafísico, o real e o sexo</a></p>



<h2 class="wp-block-heading">Suplemento pedagógico &#8220;Aula viva&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Este suplemento pedagógico nasceu de uma demanda que apareceu de modo recorrente durante minhas palestras em diferentes cidades do interior do Brasil. Em conversas com professores da Educação Básica, ouvi muitas vezes a mesma dificuldade: como levar os conteúdos de literatura africana para a sala de aula quando os textos envolvem conceitos densos, exigem repertório teórico, demandam tempo de leitura e análise e, em muitas escolas, encontram pouca disponibilidade de materiais didáticos preparados para esse nível de ensino?</p>



<p class="wp-block-paragraph">As dificuldades variam conforme a escola, a região, o acesso a recursos tecnológicos, o tempo disponível para cada turma e as condições concretas de trabalho. Nem todas essas circunstâncias podem ser solucionadas por um livro. Algumas dependem de políticas educacionais, de melhores condições de trabalho, de formação continuada e de acesso a acervos. Ainda assim, existe uma contribuição que está ao alcance de quem produz material didático: transformar parte da pesquisa acadêmica em instrumento de trabalho para o professor.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<div data-wp-interactive="core/file" class="wp-block-file"><object data-wp-bind--hidden="!state.hasPdfPreview" hidden class="wp-block-file__embed" data="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/10/Livro-Critica-Literaria-Aula-Viva-metodologias-o-metafisico-formatado.pdf" type="application/pdf" style="width:100%;height:600px" aria-label="Incorporado de Livro - Crítica Literária -  Aula Viva metodologias o metafísico -formatado."></object><a id="wp-block-file--media-5f6c414c-a2b4-46d0-b885-57edbb42e1e6" href="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/10/Livro-Critica-Literaria-Aula-Viva-metodologias-o-metafisico-formatado.pdf">Livro &#8211; Crítica Literária &#8211;  Aula Viva metodologias o metafísico -formatado</a><a href="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/10/Livro-Critica-Literaria-Aula-Viva-metodologias-o-metafisico-formatado.pdf" class="wp-block-file__button wp-element-button" download aria-describedby="wp-block-file--media-5f6c414c-a2b4-46d0-b885-57edbb42e1e6">Baixar</a></div>



<p class="wp-block-paragraph">Foi com esse propósito que este suplemento foi elaborado como material complementar ao livro <em>O metafísico, o real e o sexo: ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde</em>. A proposta consiste em aproximar uma pesquisa concebida no âmbito universitário das necessidades concretas da Educação Básica, criando uma passagem entre dois espaços que muitas vezes permanecem excessivamente separados: a produção acadêmica e a sala de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa aproximação faz parte da minha própria trajetória profissional. Durante minha atuação docente, produzi conteúdos educacionais para diferentes portais voltados à educação, entre eles Brasil Escola, Alunos Online, Mundo Educação e O Educador. Também mantenho produção regular de textos em meu próprio site. Essa experiência mostrou, de forma bastante concreta, que escrever para estudantes exige escolhas diferentes daquelas escolhas que fazemos ao escrever um artigo acadêmico que será lido por outros pesquisadores. A mudança de público modifica a extensão da explicação, a organização dos conceitos, o vocabulário e a maneira de apresentar exemplos. Isso não significa abandonar o rigor intelectual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma diferença importante entre simplificar uma explicação e simplificar um conceito. A primeira operação pode tornar o conhecimento mais acessível. A segunda pode deformá-lo. Um material destinado à Educação Básica precisa encontrar uma linguagem capaz de apresentar conceitos complexos sem transformar a complexidade em obstáculo intransponível. A busca desse equilíbrio orienta as páginas que seguem, com a ressalva de que um conceito filosófico que é tema de teses de doutorado, como Labor, para Hannah Arendt, não será tratado em todas as suas nuances em uma aula para o Ensino Fundamental ou Médio. O texto didático proposto aqui é uma porta de entrada para o texto filosófico e literário, que devem ser usados na aula. O texto didático é um suporte que não dispensa a necessidade da leitura dos autores e filósofos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença das Literaturas Africanas na Educação Básica possui ainda uma dimensão curricular e cultural que torna esse trabalho particularmente necessário. A literatura de países africanos de língua portuguesa oferece aos estudantes formas de observar experiências históricas, sociais, culturais e linguísticas que dificilmente aparecem quando o ensino da literatura se concentra apenas no repertório tradicional das literaturas europeias e brasileira. O contato com escritores de Cabo Verde, no caso específico do nosso livro, mas também os de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe amplia o repertório literário e permite estabelecer relações entre diferentes processos históricos e culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há ainda uma dimensão regional que orienta este trabalho: a necessidade de ampliar a circulação da literatura produzida em Goiás e de inserir os autores goianos no repertório cultural dos próprios estudantes do estado. Divulgar esses escritores para leitores de outras regiões do país contribui para ampliar a presença da literatura goiana no cenário nacional; contudo, esse movimento precisa começar pela escola, espaço no qual os estudantes podem reconhecer em sua própria formação cultural autores, paisagens, experiências históricas e formas de linguagem vinculadas ao lugar em que vivem. Conhecer Bernardo Élis, Leodegária de Jesus, Augusta Faro, Lari Mundim, Ubiratan Carvalho Costa e outros escritores goianos significa também perceber que a produção literária de Goiás possui diferentes períodos, vozes, perspectivas e possibilidades de leitura, e que ela pode ocupar um lugar efetivo no repertório cultural dos estudantes, ao lado das literaturas de outras regiões brasileiras e de outros países.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que essa aproximação aconteça, contudo, não basta recomendar que determinado autor seja lido. O professor precisa de condições para transformar a leitura em experiência pedagógica. Um ensaio acadêmico pode cumprir muito bem sua função dentro da universidade e, ainda assim, ser inadequado para uma turma do Ensino Fundamental ou Médio. A linguagem, a extensão, o nível de pressuposição teórica e a própria finalidade do texto acadêmico respondem a necessidades diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por essa razão, este suplemento não reproduz os cinco ensaios de <em>O metafísico, o real e o sexo</em>. Os textos foram adaptados para uma finalidade específica: servir de material de leitura e de trabalho para estudantes da Educação Básica. A adaptação modifica a forma de apresentação, a extensão das explicações e o modo de introduzir os conceitos. O rigor conceitual, contudo, permanece como princípio da proposta. A intenção é oferecer ao estudante um primeiro contato possível com questões que podem depois conduzi-lo a leituras mais complexas, mas principalmente funcionar como uma leitura prévia antes de entrar em contato com os textos literários e filosóficos citados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O suplemento acompanha os cinco ensaios do livro. Cada um deles deu origem a um novo texto, escrito com atenção às condições de leitura de estudantes do Ensino Básico. As questões filosóficas e literárias presentes nos ensaios permanecem como eixo das adaptações, embora sua apresentação tenha sido reorganizada para favorecer a compreensão e o trabalho pedagógico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de cada texto, encontram-se cinco sugestões de atividades. Elas foram pensadas para situações escolares distintas. Algumas utilizam recursos tecnológicos, enquanto outras podem ser realizadas apenas com papel e caneta. Essa diversidade é deliberada. Uma proposta pedagógica precisa considerar que as escolas possuem estruturas diferentes e que uma atividade que funciona muito bem em uma instituição pode ser inviável em outra. As sugestões, portanto, procuram oferecer procedimentos que possam ser modificados conforme a turma, o espaço, o tempo disponível e os recursos existentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atividades também podem ultrapassar os textos deste suplemento. Uma proposta criada para discutir o fantástico em uma narrativa de Augusta Faro pode ser adaptada para outro conto; uma atividade sobre poder e violência a partir de Bernardo Élis pode servir para outras obras; um exercício sobre voz narrativa pode ser transportado para diferentes gêneros literários. O objetivo é apresentar possibilidades de trabalho que o professor possa reutilizar e transformar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao final de cada parte, há ainda um conjunto de perguntas e respostas. O questionário possui uma função que ultrapassa a verificação tradicional da leitura. As questões podem servir para revisão, discussão oral, produção escrita, atividade em grupo, avaliação diagnóstica ou preparação para uma prova. Algumas podem ser respondidas individualmente; outras podem dar origem a debates, pesquisas, apresentações ou atividades de comparação entre textos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A literatura ganha outra dimensão quando deixa de ocupar apenas o lugar de conteúdo a ser memorizado e passa a integrar práticas de leitura, interpretação, argumentação e produção de conhecimento. O mesmo vale para a filosofia e para os conceitos que atravessam os ensaios. Um conceito filosófico apresentado em sala de aula pode servir como ferramenta para ler uma personagem, interpretar uma imagem, comparar dois textos ou formular uma pergunta sobre determinada experiência histórica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ponte entre universidade e Educação Básica precisa funcionar nos dois sentidos. A escola pode receber da universidade pesquisas, conceitos, repertórios e métodos; a universidade, por sua vez, precisa permanecer atenta às perguntas que surgem na escola e às condições concretas em que o conhecimento será utilizado. As conversas com professores durante minhas palestras foram decisivas para a elaboração deste material justamente porque mostraram uma necessidade que uma pesquisa acadêmica, isoladamente, não resolveria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este suplemento nasce, portanto, de uma experiência de escuta e de uma tentativa de resposta. Ele não pretende resolver as dificuldades que cercam o ensino de Literaturas Africanas no Brasil, nem o problema da difusão da Literatura Goiana ou o pequeno espaço que a Filosofia tem dentro da grade curricular. Entre a pesquisa universitária e a sala de aula existe um espaço que precisa ser preenchido por mediações: textos adequados, propostas de atividade, perguntas, exemplos e formas de leitura que permitam ao estudante entrar em contato com conteúdos complexos sem que a complexidade impeça o primeiro contato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse espaço que este material se coloca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A interdisciplinaridade também orienta a proposta deste material. O estudo da literatura pode estabelecer relações produtivas com a Filosofia, a História, a Geografia, a Sociologia, as outras Artes e outras áreas do conhecimento, permitindo que uma obra literária seja compreendida dentro de diferentes perspectivas. As literaturas de Goiás e de Cabo Verde, por exemplo, possibilitam discutir território, colonialismo, religiosidade, relações de poder, identidade, desigualdade social, natureza, corpo e formas de representação. O ensino interdisciplinar amplia as possibilidades de leitura porque permite que o estudante mobilize conhecimentos de diferentes áreas para interpretar um mesmo objeto, percebendo que os problemas humanos e culturais raramente obedecem às divisões estabelecidas entre os campos do conhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo de toda a trajetória pedagógica deste suplemento, a construção das propostas interdisciplinares será fundamentada em um acervo diversificado de metodologias ativas, ágeis, imersivas e colaborativas presentes na literatura educacional contemporânea. Cada dinâmica prática foi desenhada a partir das contribuições teóricas e metodológicas de autores de referência, buscando transformar conteúdos literários, históricos, filosóficos e científicos em experiências profundas de aprendizagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da obra de Celso Antunes (2018), que é um dos mais renomados educadores e especialistas em didática e inteligências múltiplas do Brasil, reconhecido por transformar teorias psicopedagógicas em dinâmicas práticas e jogos aplicáveis na sala de aula, adaptamos a estratégia do Laboratório de Inteligência Naturalista e Simbólica. Essa proposta explora a observação ambiental e a classificação de rastros biológicos e culturais no texto literário para desenvolver a percepção e o rigor analítico dos estudantes (Antunes, 2018, pp. 15-40). Do mesmo autor, em sua obra sobre métodos construtivistas de estudo (2016), derivamos dinâmicas de raciocínio crítico e análise textual colaborativa, nas quais os alunos utilizam o jogo e a investigação como ferramentas estratégicas para estruturar o próprio aprendizado e solucionar problemas conceituais (Antunes, 2016, pp. 12-48).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Celso Antunes contribui também com a Oficina de Jogos Dramáticos de Autoimagem e Identidade (Antunes, 2018, pp. 45-80), em que a utilização de materiais simples como papéis e espelhos promove o autoconhecimento e o confronto entre a imagem singular do indivíduo e os rótulos burocráticos e sociais. O autor fundamenta ainda a estratégia de Mapeamento de Pistas em Painel Investigativo (Antunes, 2016, pp. 50-90), na qual as pessoas discentes coletam evidências no texto-base e as categorizam visualmente no quadro principal entre fatos concretos e distorções discursivas, desenvolvendo o raciocínio investigativo e a validação coletiva dos saberes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dos estudos organizados por Renato Matos Lopes (2019), pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e especialista no ensino de ciências cuja liderança na disseminação da Aprendizagem Baseada em Problemas no Brasil contribuiu decisivamente para modernizar a formação docente, extraímos os fundamentos da Aprendizagem Baseada em Problemas. A partir dessa referência, aplicamos o modelo de design de problemas conhecido como 3C3R, formulado por Woei Hung, que organiza cenários complexos do mundo real ao redor de componentes centrais como conteúdo, contexto e conexão, e componentes processuais como pesquisa, raciocínio e reflexão (Lopes et al., 2019, pp. 47-115). Dessa mesma fonte bibliográfica, incorporamos o Método Quebra-Cabeça de aprendizagem cooperativa, no qual as pessoas discentes se dividem em grupos de especialistas para dominar conceitos específicos e posteriormente ensiná-los aos colegas em seus grupos de origem (Lopes et al., 2019, pp. 120-145).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das pesquisas de Andrea Filatro e Carolina Costa Cavalcanti (2018), que são pesquisadoras brasileiras de destaque nas áreas de design instrucional, tecnologias educacionais e metodologias inovadoras, fundamentais para a sistematização de práticas ativas e ágeis no país, mobilizamos uma ampla gama de estratégias. Adaptamos o Design Thinking aplicado à educação por meio do Caso Empático para promover o mapeamento das perspectivas de sujeitos históricos, a Rotação por Estações para fracionar temas densos em circuitos simultâneos de aprendizagem, a Sala de Aula Invertida com Instrução pelos Pares para fomentar o debate de conceitos via votação digital, o World Café para organizar diálogos colaborativos em mesas temáticas e a apresentação ágil Pecha Kucha para exercitar a síntese oral e visual em tempo cronometrado (Filatro &amp; Cavalcanti, 2018, pp. 118-250). Andrea Filatro e Carolina Costa Cavalcanti contribuem também com a metodologia do Laboratório Virtual de Fact-Checking e Curadoria de Notícias (Filatro &amp; Cavalcanti, 2018, pp. 180-210), que utiliza ferramentas digitais de checagem e plataformas colaborativas para orientar os estudantes no rastreamento de notícias e boatos virtuais, analisando o distanciamento entre o fato material primário e a inflação discursiva nas redes. As autoras fundamentam igualmente a Exposição Virtual e Mural de Curadoria Interativa (Filatro &amp; Cavalcanti, 2018, pp. 215-240), permitindo que as equipes organizem acervos digitais multimídia com áudios, imagens e textos para investigar as relações entre arte, memória e limites da representação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da obra de Brian Burke (2015), que atua como vice-presidente de pesquisas na consultoria Gartner e é uma das maiores autoridades mundiais no estudo da gamificação corporativa e educacional, utilizamos os princípios do design centrado no jogador e da motivação intrínseca. A partir dessa referência, desenhamos a Gamificação de Conteúdo e a Trilha da Transcendência, organizando o estudo de conceitos filosóficos e literários em níveis progressivos de desafio com feedbacks imediatos, além de estruturarmos o Escapa-Sala Digital, onde as equipes resolvem enigmas conceituais interligados para desbloquear etapas de investigação (Burke, 2015, pp. 15-135). Brian Burke contribui também com a Gamificação Estrutural voltada ao estudo e revisão de conteúdos (Burke, 2015, pp. 140-180), como o Desafio dos Enigmas, em que mecânicas cooperativas baseadas em tempo e desafios investigativos orientam a checagem de conceitos sem o caráter punitivo dos testes tradicionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do trabalho de Willian N. Bender (2014), educador norte-americano especialista em diferenciação do ensino e uma das principais referências internacionais no desenvolvimento de projetos escolares autênticos, aplicamos os fundamentos da Aprendizagem Baseada em Projetos. Essa abordagem serviu para ancorar o ensino em problemas do mundo real e orientar os alunos na produção colaborativa de artefatos finais significativos, como infográficos e mídias digitais, que demonstram o domínio prático dos conteúdos investigados (Bender, 2014, pp. 20-95). Willian N. Bender contribui também com a Investigação Etnográfica e Mapeamento de Linguagens da Cidade (Bender, 2014, pp. 100-140), uma aplicação da aprendizagem baseada em projetos de campo na qual os alunos realizam pesquisas autênticas na comunidade para mapear as divergências entre registros burocráticos e identidades sociais cotidianas. Do mesmo modo, o autor embasa a abordagem de Estudo de Caso com Diagnóstico Coletivo e Matriz de Impacto Social (Bender, 2014, pp. 145-185), na qual os estudantes analisam cenários de exclusão retratados na literatura, organizando em matrizes analíticas as causas materiais da opressão, os impactos corporais e as respostas estéticas produzidas pelos sujeitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das propostas de Matt Miller (2015), educador e autor norte-americano reconhecido por incentivar a transformação da prática docente mediante o uso de tecnologias e o abandono de livros didáticos estáticos, adaptamos estratégias focadas na criação de microconteúdos e na aprendizagem visual. Integrando suas ideias, propusemos o Storytelling Digital via Podcasting, o Sketchnoting com Realidade Aumentada e as dinâmicas de notação e curadoria coletiva, como a Caminhada Silenciosa pela Galeria aliada à Feira de Especialistas, permitindo que os estudantes expressem o conhecimento por meio de múltiplas linguagens e edições colaborativas em cartazes (Miller, 2015, pp. 30-180).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Matt Miller contribui também com as dinâmicas de curadoria visual e notação gráfica colaborativa (Miller, 2015, pp. 190-230), servindo de base para o design da Caminhada Silenciosa pela Galeria e da Bancada de Curadoria, nas quais o debate escrito em silêncio nos cartazes e a edição coletiva estimulam o engajamento ativo dos alunos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das contribuições de Dave Burgess (2012) e Doug Lemov (2021) extraímos técnicas focadas no engajamento emocional, na imersão e na gestão cognitiva da sala de aula. Dave Burgess é um educador norte-americano criador do sistema PIRATE, famoso por defender que a aula deve ser uma experiência surpreendente e envolvente; dele adaptamos o uso de Ganchos Sensoriais e de Acessórios para gerar mistério e impacto logo na abertura das atividades (Burgess, 2012, pp. 45-110). Já Doug Lemov é um pesquisador norte-americano e fundador do projeto Uncommon Schools, reconhecido por codificar técnicas concretas de ensino baseadas na ciência cognitiva; de sua obra aplicamos procedimentos de alto rigor como a Escrita Reflexiva prévia, a Chamada Fria para engajamento equitativo, A Arte da Sentença para síntese gramatical precisa, a Atividade de Aquecimento e a elevação do coeficiente acadêmico, garantindo que o esforço de processamento mental permaneça centrado nos próprios alunos (Lemov, 2021, pp. 80-260).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dave Burgess contribui também com o Gancho de Transformação de Ambiente e Imersão Sensorial (Burgess, 2012, pp. 115-150), no qual a alteração cênica da sala de aula por meio de iluminação e som simula os contrastes ambientais das obras literárias, provocando o envolvimento emocional e a empatia. Doug Lemov contribui também com procedimentos de alto rigor cognitivo, como as técnicas Name the Steps e Show Me para a desconstrução sintática e poética de textos no quadro (Lemov, 2021, pp. 270-310), o Circuito de Troca de Cartões com Validação Cruzada para revisão por pares (Lemov, 2021, pp. 315-350), e a Feira de Especialistas, que assegura a responsabilidade individual na construção de sínteses orais consolidadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da obra de Marcos Napolitano (2018), adaptamos ao trabalho interdisciplinar com o cinema as estratégias do Cine-Debate e da Oficina de Roteiro e Storyboarding. A primeira proposta utiliza a exibição de produções cinematográficas aliada a roteiros de observação focada para que as pessoas discentes analisem a linguagem audiovisual e correlacionem cenas e atuações aos conceitos filosóficos e narrativos abordados em sala (Napolitano, 2018, pp. 15-60). A segunda estratégia explora a decupagem técnica e o desenho de storyboards, estimulando os alunos a aplicarem enquadramentos, planos de câmera e iluminação para adaptar trechos literários e representar visualmente dilemas estéticos complexos (Napolitano, 2018, pp. 65-110). Marcos Napolitano é historiador, docente da Universidade de São Paulo e um dos principais pesquisadores brasileiros sobre a integração pedagógica entre cinema, história e cultura visual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse conjunto integrado de referenciais teóricos e metodológicos permitiu construir um percurso didático coerente, no qual a teoria educacional fundamentou diretamente cada passo prático do ensino interdisciplinar de Literatura, História e Filosofia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Download gratuito do livro &#8220;O metafísico, o real e o sexo&#8221;</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2026 13:44:09 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">O livro <em>O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde</em>, de Wigvan Pereira dos Santos (2026), estabelece um estudo comparado de abrangência transatlântica entre as manifestações literárias do cerrado goiano e do arquipélago cabo-verdiano. A investigação articula dez autores organizados em cinco pares analíticos para examinar como formações culturais periféricas lidam com a religiosidade, a violência política, o fantástico animista, a polifonia da voz e o erotismo dissidente. A pesquisa recusa o isolamento geográfico. O pesquisador, mestre, doutor e pós-doutor em literatura, delineia as linhas de força que aproximam e distam a interioridade continental brasileira do isolamento insular atlântico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro capítulo examina a inflexão existencialista e a dicotomia da fé na poesia romântica tardia de Leodegária de Jesus e de Eugénio Tavares. A angústia diante da finitude atravessa as formas clássicas do soneto decassílabo em ambas as produções. A poeta goiana mobiliza a imagética da Paixão de Cristo e o pavor da perda como refúgio estético para a dor de ser mulher e negra no Brasil Central pós-abolicionista. Por sua vez, o intelectual cabo-verdiano eleva a língua crioula e a morna ao estatuto de linguagem poética, sacralizando o amor humano (<em>cretcheu</em>) em confronto direto com a injustiça social e o silêncio divino. O rigor formal opera como contenção do desespero lírico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo capítulo aborda as matrizes da opressão política e a vinculação telúrica nos romances <em>O Tronco</em>, do goiano Bernardo Élis, e <em>Chuva Braba</em>, do cabo-verdiano Manuel Lopes. A violência institucional no sertão de Goiás manifesta-se como código de poder oligárquico e captura do aparelho forense pelo mandonismo dos coronéis. Em contraposição, o isolamento insular de Santo Antão expõe a provação ética do lavrador Mané Quim perante a seca e a tentação do desterro promovida pelo capital de retorno. As categorias da <em>vita activa</em> e da alienação do mundo elaboradas por Hannah Arendt iluminam o dilema entre a edificação do habitar humano e a exploração utilitária da terra. As linguagens populares de ambos os autores funcionam como resistência política contra a marginalização histórica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O terceiro capítulo investiga o esfacelamento das fronteiras entre o humano, o animal e o insólito nos contos de Augusta Faro e de Orlanda Amarílis. A prosa da autora goiana inscreve-se nos parâmetros formais do fantástico europeu teorizado por Tzvetan Todorov, encenando a derrocada da assepsia cartesiana da protagonista Dolores diante de uma invasão de formigas portadoras de intencionalidade e escárnio. Por sua vez, a narrativa da escritora cabo-verdiana exige a mobilização do conceito decolonial de realismo animista elaborado por Harry Garuba, no qual o mundo material e o plano espiritual coexistem em uma ontologia de sobrevivência e ancestralidade. O colapso somático da pesquisadora Luna Cohen na Nigéria expõe a insuficiência do racionalismo acadêmico Ocidental perante o vitalismo orgânico africano. A figuração do bestiário desestabiliza a retórica antropocêntrica de exclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quarto capítulo analisa o colapso e a reconstituição da subjetividade nos romances <em>Mata de Dentro</em>, da brasileira Lari Mundim, e <em>Crime nas Correntes d&#8217;Escritas</em>, do cabo-verdiano Germano Almeida. A ontologia do real formulada por Clément Rosset serve de aporte para investigar como duplicações existenciais, rituais compulsivos e invenções jurídicas funcionam enquanto mecanismos de esquiva diante do acontecimento singular (<em>idiotia</em>). A narrativa de Mundim acompanha a ruína das garantias institucionais de uma professora pública, cuja vivência do desabrigo e da perda do lar culmina na afirmação corporal e nominativa do Professor Caio. A sátira de Almeida desmonta a vaidade do meio literário em torno do sumiço irreal de um manuscrito, revelando o atrito entre a ficção paródica e a reputação biográfica das pessoas reais. A polifonia bakhtiniana desfaz a ilusão monológica e restaura a presença vocal no tempo presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quinto capítulo encerra o volume com o exame das figurações do erotismo e do desejo homoerótico nas obras do poeta goiano Ubiratan Costa e do romancista cabo-verdiano Evel Rocha. A lírica de Costa em <em>Tarde Inventada</em> constrói a representação do corpo masculino como índice de uma ausência inatingível, relacionando o limite do toque e do gozo com a noção de representação negativa teorizada por Jean-François Lyotard na analítica do sublime. A prosa de Rocha em <em>Marginais</em> projeta um &#8220;sublime do baixo&#8221; nas quebradas periféricas da Ilha do Sal, onde a dor física, a abjeção escatológica e o desamparo social convertem a experiência erótica e marginal em testemunho ríspido contra a moralidade burguesa. As duas produções recusam a redução da sexualidade ao agrado apaziguador do gosto clássico. A matéria carnal tensiona a linguagem até o ponto de esgotamento de suas normas formais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O metafísico, o real e o sexo – ensaios de literatura de Goiás e Cabo Verde</em></strong> propõe uma travessia crítica entre duas tradições literárias raramente colocadas em contato sistemático. Ao aproximar autores goianos e cabo-verdianos de diferentes períodos, gêneros e horizontes estéticos, o livro desloca os estudos comparados para além das relações previsíveis entre centros culturais e antigos polos metropolitanos, encontrando no diálogo entre o cerrado e o arquipélago novas possibilidades de leitura da língua portuguesa e de suas geografias literárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra organiza-se em cinco encontros: Leodegária de Jesus e Eugénio Tavares; Bernardo Élis e Manuel Lopes; Augusta Faro e Orlanda Amarílis; Lari Mundim e Germano Almeida; Ubiratan Costa e Evel Rocha. A escolha dos pares não obedece à simples proximidade temática. Cada aproximação constitui uma hipótese crítica própria, sustentada por problemas filosóficos capazes de revelar convergências inesperadas e diferenças historicamente significativas. Religiosidade e existência, violência e pertencimento, animalidade e humanidade, duplicação do real e polifonia, erotismo e marginalidade formam um percurso que atravessa mais de um século de produção literária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A originalidade do projeto reside precisamente na recusa de tratar Goiás e Cabo Verde como espaços isolados ou como expressões periféricas definidas apenas por sua distância em relação aos centros de consagração cultural. O livro identifica entre essas duas geografias formas particulares de elaboração da experiência histórica: a relação entre território e abandono, a persistência da religiosidade, a violência das estruturas de poder, os conflitos entre racionalidade e imaginários não ocidentais, a instabilidade da identidade e as formas dissidentes do desejo. O Atlântico deixa, assim, de funcionar como separação e passa a constituir um espaço crítico de relações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O percurso teórico também se distingue pela pluralidade de suas interlocuções. Kierkegaard, Hannah Arendt, Michel Foucault, Clément Rosset, Mikhail Bakhtin, Jean-François Lyotard e os debates sobre o fantástico e o realismo animista fornecem instrumentos conceituais específicos para cada aproximação. A teoria não funciona como molde aplicado indistintamente aos textos literários. Cada capítulo constrói seu próprio problema e mobiliza conceitos capazes de responder às exigências particulares das obras analisadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da angústia religiosa à violência política, do animal que perturba as fronteiras da humanidade ao sujeito que se multiplica diante do real, do corpo desejado à matéria degradada da marginalidade, O metafísico, o real e o sexo percorre experiências que frequentemente permanecem separadas pelas divisões tradicionais entre história literária, filosofia, teoria política e estudos da sexualidade. A unidade do volume surge justamente dessa diversidade: a literatura aparece como lugar onde as formas abstratas do pensamento encontram corpos, territórios, conflitos e experiências concretas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O último movimento do livro sintetiza uma de suas apostas mais singulares ao aproximar a poesia homoerótica de Ubiratan Costa e o romance Marginais, de Evel Rocha, por meio da filosofia do sublime de Jean-François Lyotard. De um lado, o desejo revela a impossibilidade de possuir plenamente o corpo amado; de outro, a marginalidade transforma a fome, a violência e a abjeção numa experiência estética do excesso. Entre o sublime da intimidade e um sublime do baixo, a comparação demonstra como obras radicalmente distintas podem compartilhar uma mesma relação com os limites da representação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem buscar equivalências artificiais entre autores, épocas ou contextos nacionais, <strong><em>O metafísico, o real e o sexo</em></strong> aposta na comparação como exercício de descoberta. As aproximações propostas não procuram apagar as diferenças entre Goiás e Cabo Verde. Partem delas. É nesse intervalo entre o continente e a ilha, entre o sertão e o arquipélago, entre tradições literárias que raramente ocupam o mesmo horizonte crítico, que o livro constrói sua contribuição: uma cartografia comparada da literatura em língua portuguesa, atenta às margens geográficas sem reduzir a margem a uma posição secundária no pensamento literário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra oferece, desse modo, uma leitura abrangente e conceitualmente articulada de dez escritores, combinando análise textual, filosofia e literatura comparada para interrogar alguns dos problemas mais persistentes da experiência humana: a morte, a fé, a violência, o pertencimento, o corpo, a alteridade, o desejo e a própria dificuldade de representar o real.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">Wilmar Filho</p>



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		<title>&#8220;Eu não sou feita de pau&#8221;: Totonya, da angolana Rosária da Silva</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 20:13:49 +0000</pubDate>
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<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="450" height="675" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/totonya-capa.webp" alt="" class="wp-image-2838" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/totonya-capa.webp 450w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/totonya-capa-200x300.webp 200w" sizes="(max-width: 450px) 100vw, 450px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">O romance&nbsp;Totonya, de Rosária da Silva, critica a&nbsp;marginalização feminina&nbsp;e as contradições do&nbsp;Angola&nbsp;pós-independência. Através de uma&nbsp;autoetnografia, a obra revela como o discurso&nbsp;marxista-leninista&nbsp;do MPLA falhou em garantir a igualdade real, mantendo o&nbsp;patriarcado.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O romance &#8220;Totonya&#8221;, dado a lume em 1997, configura-se como um marco na historiografia literária de Angola sob o signo da independência. A obra emerge em uma conjuntura de profunda convulsão social, em que as fases mais atrozes da guerra civil — entre os anos de 1992 e 1994 — ainda ecoavam no tecido social angolano. A autora, membro fundadora da&nbsp;<strong>Brigada Jovem da Literatura de Angola</strong>, articula um discurso que, à primeira vista, parece alinhar-se à ortodoxia marxista-leninista do MPLA, partido cujos princípios reverberavam sobre a produção cultural do período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A construção espacial da narrativa fundamenta-se em um dualismo geográfico que mimetiza as tensões étnicas e regionais da identidade nacional. Ao traçar a jornada de Maria Antónia, a Totonya, de Luanda para a periferia de Benguela, a autora mapeia uma geografia de poder em que a capital representa a hegemonia da elite crioula e a ilusão de um cosmopolitismo que se desintegra ao confrontar as margens. Benguela não se limita a um cenário passivo; constitui uma&nbsp;<strong>zona de contato, conceito de Mary Louise Pratt,</strong>&nbsp;por excelência. Trata-se de um espaço social onde culturas distintas chocam-se em contextos de relações de poder assimétricas, e onde o esforço de assimilação por parte da cultura dominante luandense fracassa diante da resiliência das tradições locais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse território de conflito, a cidade de Benguela atua como um laboratório de alteridade. A protagonista, imbuída da modernidade que sua posição social e educação em Luanda lhe conferem, defronta-se com a falência da retórica unificadora do Estado. A transição espacial permite que a análise abandone a abstração das fronteiras nacionais para focar na metodologia de representação do sujeito através da&nbsp;<strong>autoetnografia</strong>. Esse processo não se limita a um relato confessional; ele funciona como um contradiscurso etnográfico que reage tanto à visão exótica do olhar ocidental quanto ao silenciamento patriarcal que subsiste no âmago do projeto revolucionário angolano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra desenvolve o que o teórico Graham Huggan denomina&nbsp;<strong>autoetnografia celebratória</strong>, um mecanismo pelo qual o sujeito subalterno retoma a dignidade de uma cultura subordinada perante a hegemonia masculina. Esse processo narrativo permite que Rosária da Silva devolva à mulher angolana a agência sobre sua própria trajetória histórica. É fundamental compreender que a resistência presente no texto ultrapassa o binarismo clássico entre colonizado e colonizador europeu. O foco desloca-se para a mulher que escreve a si mesma em oposição ao homem angolano no período pós-independência, denunciando que a libertação nacional não se traduziu, necessariamente, em emancipação doméstica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa construção de identidade encontra-se umbilicalmente ligada aos símbolos culturais que permeiam a obra, com especial ênfase na iconografia Chokwe. A narrativa utiliza a autoetnografia não apenas como denúncia, mas como uma ferramenta de&nbsp;<strong>transculturação</strong>, em que elementos da tradição são selecionados e apropriados para confrontar a visão monolítica de modernidade imposta pelo Estado. A subjetividade de Totonya reconstrói-se, portanto, a partir dos escombros de uma identidade nacional que prometeu inclusão, mas entregou apenas uma nova roupagem para velhas formas de subjugação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O simbolismo da máscara&nbsp;<strong>Mwana Pwo</strong>, presente na iconografia da primeira edição, sintetiza a ambiguidade ontológica das representações do feminino em Angola. Embora tal artefato simbolize o ideal de feminilidade e preste homenagem à maternidade nos ritos de iniciação&nbsp;<em>mukanda</em>, trata-se de uma representação performada por homens. É o&nbsp;<em>ethos</em>&nbsp;masculino que define e delimita o que deve ser a mulher na esfera pública. A transição para a segunda edição, que substitui o simbolismo tradicional pela face feminina nua, sinaliza o despertar da mulher como agente de sua própria representação. Esse rompimento simbólico marca a rejeição de uma identidade forjada sob a tutela de guias espirituais masculinos e prepara o terreno para a análise da desintegração doméstica da protagonista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mudança da capa reflete o prelúdio para a face nua e agredida de Totonya no espaço privado, onde a máscara da modernidade de seu marido, Quim, cai por terra. A vida privada de Totonya sofre uma metamorfose drástica após a morte de seu filho prematuro, evento que serve de gatilho para a adoção da poligamia não oficial pelo marido. Nesse labirinto da domesticidade, a narrativa expõe como o uso da&nbsp;<strong>bruxaria</strong>&nbsp;atua como um mecanismo social. Ao atribuir o comportamento errático de Quim a manipulações metafísicas da amante, o sistema social isenta o homem de sua responsabilidade moral e silencia a dor da esposa legítima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O discurso sobre o feitiço em &#8220;Totonya&#8221; guarda uma analogia perturbadora com as próprias perseguições políticas do MPLA, que utilizava acusações de &#8220;obscurantismo&#8221; para eliminar opositores e consolidar seu poder inquestionável. No âmbito doméstico, o feitiço é o instrumento que mantém intactas as estruturas de poder patriarcal: o homem permanece no centro, enquanto as mulheres digladiam-se entre si, em uma reprodução do atavismo colonial de &#8220;dividir para reinar&#8221;. A falha das instituições modernas, como a OMA e o sistema judiciário, em proteger Totonya revela que o projeto de nação optou por sacrificar a libertação feminina para garantir o apoio de elites tradicionais masculinas no espaço doméstico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa demonstra que o&nbsp;<strong>Homem Novo</strong> é, em última análise, um simulacro que oculta a permanência da opressão. A negligência institucional não é um erro de percurso, mas uma escolha política deliberada. Conforme articula a crítica pós-colonial, o Estado angolano preferiu conceder o terreno do lar à autoridade masculina para assegurar a estabilidade de seu próprio domínio político. Totonya, ao buscar o auxílio de sorcerers que apenas tentam mercantilizar seu corpo, percebe que não há lugar para ela nem na tradição, nem na modernidade estatal, uma vez que ambas as esferas operam sob a lógica da hegemonia masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante da falência das instituições, o romance aponta para o surgimento de subjetividades emergentes através das filhas de Dona Andresa. Essas personagens representam modelos alternativos de feminilidade que utilizam a educação e a independência financeira para subverter a economia sexual masculina. Elas recusam o casamento como única forma de validação e impõem suas próprias individualidades acima da necessidade coletiva de &#8220;normalização&#8221; social. O isolamento final de Totonya, que opta por se afastar tanto de Luanda quanto de Benguela, simboliza a busca por um espaço de autonomia que não dependa da chancela do marido ou da validação do aparato estatal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A decisão de Totonya de reconstruir sua vida com os filhos em um local não identificado sugere que a verdadeira&nbsp;<strong>Angolanidade</strong>&nbsp;ainda é um projeto em aberto. A obra conclui que a libertação feminina não constitui um mero apêndice do processo revolucionário, mas sim o pré-requisito indispensável para uma descolonização mental e social que seja efetiva. A resiliência do feminino em &#8220;Totonya&#8221; denuncia a estética do silenciamento e exige uma reescrita da nação que reconheça a pluralidade, em que a mulher deixe de ser o objeto da representação masculina para tornar-se o sujeito de sua própria história e de seu próprio desejo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>2. Contexto Histórico: A Nação em Guerra e a Centralização</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O romance foi lançado na década de 1990, marcada por guerras civis horríveis em Angola. A primeira edição recebeu um forte patrocínio institucional, incluindo o Banco Nacional de Angola, o Porto de Luanda, o Ministério das Pescas e, crucialmente, a <strong>Fundação Eduardo dos Santos (FESA)</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criação da FESA (1996) e o seu apoio à cultura faziam parte de uma estratégia de José Eduardo dos Santos para garantir que o apoio social e cultural fosse creditado ao Presidente e não a ONGs independentes ou doadores internacionais, consolidando o poder em um momento de contestação popular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A capa da primeira edição apresentava uma <strong>máscara Chokwe (&#8220;Mwana Pwo&#8221;)</strong> e uma escultura de madeira sobre um fundo vermelho, justapostas a um rosto feminino. Essa imagem é interpretada sugere tanto o confronto quanto a negociação entre duas concepções de nação: a moderna/socialista (o fundo vermelho) e a tradicional/pré-colonial (a máscara). A máscara também pode ser lida como um símbolo da necessidade de analisar as camadas ocultas do discurso oficial e a duplicidade da unidade nacional inventada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A reedição do romance em 2005 reflete uma Angola radicalmente diferente, na qual o MPLA, após a vitória sobre a UNITA em 2002 e com a subida dos preços do petróleo, tinha seu poder consolidado. Nos anos 90, a fragilidade do governo levava-o a fazer concessões e a apoiar a cultura para manter a legitimidade; em 2005, a posição confortável do país na economia mundial pode ter influenciado na falta de interesse em apoiar a obra da primeira romancista do país. Ao contrário da primeira edição, a versão de 2005 <strong>não teve qualquer apoio governamental</strong>. O patrocínio veio da Gemac Lda., uma empresa privada de turismo e entretenimento. A capa de 2005 não manteve as referências à cultura Chokwe, tampouco o fundo vermelho socialista. A capa passou a apresentar apenas o rosto feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora o livro pareça, à primeira vista e pelo seu contexto de publicação, filiado à ideologia do MPLA (o marido da protagonista, Quim, é um quadro do partido), a narrativa expõe as limitações e hipocrisias do discurso. Rosária da Silva utiliza a &#8220;autoetnografia celebratória&#8221; para mostrar como o projeto modernizador socialista falhou com as mulheres, mantendo-as subjugadas na esfera privada enquanto pregava a emancipação na pública.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>3. A narrativa</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O romance retrata a tensão entre <strong>Luanda</strong> (o centro moderno, a elite crioula, o poder) e <strong>Benguela</strong> (a periferia, a zona de contacto cultural).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa desenrola-se no início da década de 1980, especificamente a partir de outubro de 1981, e acompanha a protagonista, Maria Antónia Paixão Jerónimo, conhecida pela alcunha de Totonya, que dá título à obra. A trama inicia-se quando a personagem, grávida, viaja com os seus três filhos de Luanda para Benguela para se reunir com o marido, Joaquim Mendes (conhecido como Quim), um técnico veterinário e quadro do MPLA que ali estava colocado havia quatro anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inicialmente, a mudança parece promissora, com a família instalada numa casa luxuosa à beira-mar, sugerindo a manutenção do seu estatuto de elite. No entanto, a relação entre o casal sofre uma ruptura dramática após a morte de um filho recém-nascido. O evento abala a masculinidade de Quim, que inicia uma relação extraconjugal com uma mulher chamada Joana. Quim começa então um processo de alienação e violência contra Totonya, espancando-a frequentemente para a coagir a aceitar a sua vida dupla, privando-a de relações sexuais e, eventualmente, abandonando a família para viver temporariamente com Joana em outra localidade, Dombe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desesperada, Totonya tenta salvar o casamento recorrendo a <em>kimbandas</em> (feiticeiros), apesar da sua formação católica e moderna. Os kimbandas reforçam a estrutura patriarcal ao convencerem-na de que Quim não tem culpa, alegando que ele foi &#8220;enfeitiçado&#8221; por Joana. Em uma tentativa de resolver a situação através das vias institucionais e familiares, Totonya viaja para Luanda para pedir a intervenção das famílias de ambos. Contudo, a diligência fracassa. A família aconselha-a a ter paciência e a aceitar o seu &#8220;karma&#8221;, uma vez que os homens da elite de Luanda, incluindo o tio de Quim, Francisco Alfredo Dudas, também têm relações extraconjugais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao regressar a Benguela, Totonya encontra um Quim inicialmente receoso, mas que rapidamente retoma os abusos ao perceber que não haverá consequências. Para se livrar definitivamente da esposa, Quim inverte a narrativa: destrói a reputação pública de Totonya espalhando o rumor de que ela lhe foi infiel, usando isso como pretexto para a expulsar de casa e ficar com os bens, embora acabe por lhe entregar os filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A violência doméstica em <em>Totonya</em> não é retratada apenas como agressão física impulsiva, mas como uma ferramenta estratégica e sistemática de controle. A violência serve para forçar que Totonya aceite o adultério, como uma espécie de uma nova ordem cultural e garantir, assim, que a realidade da esfera privada não contamine a imagem pública do &#8220;Homem Novo&#8221; socialista, representado por Quim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Através da violência contínua, Quim exerce controlo absoluto sobre o corpo de Totonya, afirmando a estrutura de poder de género perante ela e a comunidade. A função primordial da violência é manter Totonya presa na esfera doméstica (privada), para que ele não seja exposto na esfera pública. O sucesso da imagem pública de Quim como revolucionário moderno depende do seu controlo violento da esfera privada. As agressões servem, também, como uma estratégia para silenciar, também a sexualidade de Totonya.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A violência é tão eficaz que leva a própria vítima a silenciar-se para proteger o agressor. Quando vizinhas levam Totonya ao hospital após um espancamento, elas não revelam a verdade por medo de represálias. Mais grave ainda, quando questionada pelos médicos, a própria Totonya mente. Apesar de saber que poderia acabar com o seu sofrimento tornando o privado em público, ela escolhe o silêncio porque foi ensinada, conforme se nota quando ela tenta pedir a intervenção de seus familiares, que esse é um comportamento que as mulheres devem aceitar dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo quando procura a OMA (Organização da Mulher Angolana), Totonya recusa-se a deixar que a organização interfira ou chame Quim, para não interferir em sua carreira política. Ela sacrifica a sua integridade física e identidade para manter intacta a imagem política do marido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A violência física é acompanhada por uma violência psicológica que visa esvaziar Totonya de qualquer agência. O corpo de Totonya deixa de ser um sujeito de desejo. Quando a violência física falha em a manter submissa, Quim violenta sua reputação, a fim de justificar o fim do matrimônio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Expulsa e humilhada, Totonya e os filhos encontram refúgio na casa de Dona Andresa, uma amiga devota e viúva. É nessa fase que Totonya entra em contacto com modelos alternativos de feminilidade através das seis filhas de Andresa (Carla, Dora, Lala, Mima, Isa e Maria José). As filhas mais velhas, Carla (27 anos) e Dora (26 anos), permanecem solteiras e recusam casar-se, o que preocupa a própria mãe, pois elas rejeitam o &#8220;status social fornecido pelo casamento. Essas mulheres, educadas e com independência económica, oferecem a Totonya uma visão distinta do papel feminino e a possibilidade de buscar autonomia econômica por meio da educação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elas e as irmãs funcionam como um contraponto à experiência de subjugação vivida pela protagonista e representam a emergência de <strong>subjetividades femininas </strong>que desafiam tanto o patriarcado tradicional como as limitações da ideologia revolucionária que vigorava. &nbsp;Lala, a terceira filha, por exemplo, é divorciada e trabalha no Ministério das Relações Exteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário de Totonya, que foi forçada a abandonar os estudos, as filhas de Andresa utilizam a educação para reescrever as suas identidades e conquistar mobilidade. Graças ao esforço da mãe viúva, elas estudam ou estudaram em diversos locais – Londres, Suíça, Cuba, Portugal e Uambo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A educação surge aqui como o meio para alcançar a liberdade, um valor além da qualificação profissional. Mesmo Mima, a filha que engravidou jovem e vive maritalmente, retomou os seus estudos em Cuba, recusando o papel exclusivamente doméstico. A quinta filha, Isa, de 20 anos, estuda dança em Portugal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um contexto em que se esperava que a mulher se sacrificasse pela família, as filhas de Andresa resistem ao impor as suas individualidades. Demonstram estar cientes das limitações da ideologia revolucionária para as mulheres e, a partir da sua libertação pública (via classe e economia), constroem identidades que desafiam a convenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um ponto crucial levantado pelo romance é que a maioria dessas subjetividades femininas emerge <strong>desconectada dos homens.</strong> O romance sugere, por meio delas, que a reescrita da identidade feminina é uma tarefa que as mulheres devem empreender por si mesmas. A unidade familiar composta apenas por mulheres, a mãe viúva e as filhas, permite a tomada de decisões que perturbam a economia sexual masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A trama encerra com o fracasso final das instituições em proteger a protagonista: a polícia perde os documentos da sua queixa e o Partido recusa-se a intervir na esfera privada. Após resistir ao assédio sexual de um feiticeiro e recuperar o controle sobre o seu corpo e desejo, Totonya decide romper com o passado. Ela solicita a transferência do seu local de trabalho e parte com os filhos, optando por reconstruir a si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>





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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="289" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png" alt="" class="wp-image-2781" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-300x85.png 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-768x217.png 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1536x434.png 1536w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31.png 1674w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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		<title>Rosária da Silva, escritora angolana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[wigvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 20:03:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[escritora angolana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Rosária Manuel da Silva nasceu em 4 de abril de 1959 em Kafofo, Golungo Alto, Cuanza Norte, Angola. Faleceu em 11 de agosto de 2022. Atuou como romancista, cronista, poeta, declamadora e professora. Formou-se em Linguística Portuguesa no ISCED da Universidade Agostinho Neto, Luanda. Na década de 1980 colaborou com o jornal Kilamba, na página [&#8230;]</p>
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<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="729" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/093FF9E0-946A-4ED7-9CD5-C8A43AACF3AF-1024x729.png" alt="" class="wp-image-2835" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/093FF9E0-946A-4ED7-9CD5-C8A43AACF3AF-1024x729.png 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/093FF9E0-946A-4ED7-9CD5-C8A43AACF3AF-300x214.png 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/093FF9E0-946A-4ED7-9CD5-C8A43AACF3AF-768x547.png 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/04/093FF9E0-946A-4ED7-9CD5-C8A43AACF3AF.png 1230w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Rosária Manuel da Silva nasceu em 4 de abril de 1959 em Kafofo, Golungo Alto, Cuanza Norte, Angola. Faleceu em 11 de agosto de 2022. Atuou como romancista, cronista, poeta, declamadora e professora. Formou-se em Linguística Portuguesa no ISCED da Universidade Agostinho Neto, Luanda. Na década de 1980 colaborou com o jornal Kilamba, na página Cultura e Mulher, publicou no Jornal de Angola, cofundou o semanário O Independente e chefiou o jornal Kilombo – Kwanza Norte Actualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De 1986 a 1998 exerceu a subdireção do Internato Polivalente 1.º de Junho, Luanda, antigo Instituto Feminino D. Pedro V, ligado à Santa Casa da Misericórdia. Em 1997 lançou o romance Totonya pela Brigada Jovem de Literatura, fato que motivou convite governamental para cargo administrativo e limitou novas produções. O livro, primeiro romance publicado por uma mulher angolana, descreve práticas bantu e introduz variações na escrita do português usado em Angola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rosária completou pós-graduação em Formação de Formadores e mestrado em Supervisão Pedagógica no ISCE de Odivelas, Portugal. Leciona Literatura Angolana, Língua Portuguesa, Língua Nacional Kimbundu e Introdução aos Estudos Literários na Escola Superior Pedagógica do Cuanza Norte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Produziu as peças teatrais <em>À Falta de Casas, Conflitos e Ilusã</em>o, encenadas em Lobito e Luanda entre 1985 e 1989. Participou nas antologias Vozes do Kwanza Norte, Entre o Fado e o Samba, Arte Poesia, Em Todos Ritmos da Poesia, Todos Tons da Poesia e A Poesia do Fado e dos Tambores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O romance <em>Totonya</em> recebeu menção honrosa do Prémio Literário António Jacinto em 1996. O manuscrito foi recusado três vezes pela União dos Escritores Angolanos, principalmente pela proposta de revisão ortográfica. A autora defendeu normas específicas para línguas bantu e resistiu a modelos únicos de escrita, sustentando que o livro reafirma a possibilidade de equidade linguística e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a sua produção literária publicada seja quantitativamente pequena, Rosária da Silva ocupa um lugar de destaque na história literária de Angola por ter publicado <em>Totonya</em> (1997/1998), que é considerado o <strong>primeiro romance escrito por uma mulher na Angola independente</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A autora foi membro fundadora da <strong>Brigada Jovem de Literatura de Angola</strong> (criada em 1981), um movimento literário que visava dar voz a uma nova geração pós-independência. No entanto, este movimento estava marcado por uma forte carga ideológica, assumindo abertamente a afiliação política ao MPLA, o partido governante de orientação marxista-leninista.</p>





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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="289" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png" alt="" class="wp-image-2781" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-300x85.png 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-768x217.png 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1536x434.png 1536w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31.png 1674w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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		<title>Download gratuito do livro</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 06:12:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Escrever é um ato de exposição. E, para muitos de nós, a folha em branco da academia não é um campo de possibilidades, mas um tribunal silencioso. O que Wigvan entrega neste livro não é apenas mais um manual de metodologia. O que você tem em mãos é, na verdade, um kit de sobrevivência — [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Escrever é um ato de exposição. E, para muitos de nós, a folha em branco da academia não é um campo de possibilidades, mas um tribunal silencioso. O que Wigvan entrega neste livro não é apenas mais um manual de metodologia. O que você tem em mãos é, na verdade, um kit de sobrevivência — um mapa para quem ainda busca o passo firme nesse terreno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheço o autor e sua trajetória há tempo suficiente para saber que este livro nasceu de uma observação atenta e empática da vivência do ensino e da orientação; nasceu de sua sensibilidade em perceber o brilho nos olhos dos alunos se apagar diante do peso de quererem ser &#8220;perfeitos&#8221; antes mesmo de serem &#8220;feitos&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande trunfo desta obra é a coragem de dizer o óbvio que quase ninguém na universidade ousa dizer: você não é a Beyoncé. E isso, acredite, é libertador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo destas aulas, você será convidado a abandonar os delírios da escrita perfeita para abraçar o pragmatismo do fatiamento. Aqui, Wigvan nos ensina que um projeto de pesquisa não é uma epifania mística, mas uma construção de LEGO. Ele troca a agonia pela técnica, o desespero pelo cronômetro e a paralisia por uma tabela de palavras-chave.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A genialidade aqui não está apenas em descomplicar, mas em tornar real o que nos parece impossível. Usando uma linguagem contextual e viva, o texto nos conduz por uma jornada em que o &#8220;joelho ralado&#8221; da escrita é parte do aprendizado, e cada &#8220;fatia&#8221; de tempo e espaço nos aproxima do único objetivo que realmente importa: terminar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você sente que a tela em branco está ganhando a luta, respire fundo. Este livro é o seu &#8220;Diário de Dificuldades e Soluções&#8221;. Siga o método, respeite o fatiamento e, como o autor bem provoca, levante a cabeça para a coroa não cair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O seu projeto não precisa ser a obra da sua vida. Ele precisa ser o próximo passo dela. E, com este guia, o caminho será muito menos solitário (e bem mais divertido).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boa jornada. E, como Wigvan nos diria em uma conversa boa: Você vai conseguir.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">Wilmar Filho</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-style:italic;font-weight:800">VOCÊ PODE LER ONLINE ABAIXO.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-style:italic;font-weight:800">PARA PREENCHER AS ATIVIDADES ENQUANTO ESTUDA,  RECOMENDA-SE FAZER O DOWNLOAD.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-style:normal;font-weight:700"><a href="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/03/Ive-Got-a-Blank-Space-Baby-Wigvan-Pereira-dos-Santos-editavel-contracapa.pdf">PARA ISSO, BASTA CLICAR AQUI: </a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><div class="_df_book df-lite" id="df_2814"  _slug="2814" data-title="ive-got-a-blank-space-baby-escreva-ja-seu-projeto-de-pesquisa-e-venca-a-tela-em-branco" wpoptions="true" thumb="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/03/Capa-do-livro-Wigvan.png" thumbtype="" ></div><script class="df-shortcode-script" nowprocket type="application/javascript">window.option_df_2814 = {"webgl":"true","outline":[],"viewerType":"flipbook","autoEnableOutline":"false","autoEnableThumbnail":"false","overwritePDFOutline":"false","enableDownload":"true","direction":"1","pageSize":"0","source":"https:\/\/www.wigvan.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Ive-Got-a-Blank-Space-Baby-Wigvan-Pereira-dos-Santos-editavel-contracapa.pdf","wpOptions":"true"}; if(window.DFLIP && window.DFLIP.parseBooks){window.DFLIP.parseBooks();}</script></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Aula sobre Alda Espírito Santo para o Ensino Médio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[wigvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Feb 2026 05:22:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[planos de aula]]></category>
		<category><![CDATA[alda espírito santo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Plano de Aula: Identidade, Resistência e Libertação em &#8220;É Nosso o Solo Sagrado da Terra&#8221; 1. Enquadramento Pedagógico e Objetivos de Aprendizagem A obra poética de Alda do Espírito Santo é um pilar fundamental da consciência nacional de São Tomé e Príncipe. Afinados com o nosso compromisso em prol da descolonização do currículo, introduzir essa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="484" height="261" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-S.Tome-2008-foto-Marta-Lanca.webp" alt="" class="wp-image-2803" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-S.Tome-2008-foto-Marta-Lanca.webp 484w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-S.Tome-2008-foto-Marta-Lanca-300x162.webp 300w" sizes="(max-width: 484px) 100vw, 484px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h1 class="wp-block-heading">Plano de Aula: Identidade, Resistência e Libertação em &#8220;É Nosso o Solo Sagrado da Terra&#8221;</h1>



<h2 class="wp-block-heading">1. Enquadramento Pedagógico e Objetivos de Aprendizagem</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A obra poética de Alda do Espírito Santo é um pilar fundamental da consciência nacional de São Tomé e Príncipe. Afinados com o nosso compromisso em prol da descolonização do currículo, introduzir essa literatura no 1º ano do Ensino Médio é uma estratégia para construir uma visão crítica sobre a herança colonial e a agência histórica africana. Ao explorar a &#8220;geografia humana&#8221; descrita pela autora, o estudante é provocado a compreender como a palavra escrita atuou como instrumento de denúncia e mobilização. A relevância pedagógica reside na capacidade de integrar a análise literária ao rigor histórico, permitindo que o aluno perceba a estética poética — o &#8220;longo canto de punhos cerrados&#8221; — não como um adorno, mas como o próprio alicerce do projeto de nação que culminou na independência e na fundação do Estado são-tomense.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A aula pode ser coletiva, com os professores de História, Literatura, Filosofia e Sociologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto a ser estudado está disponível <a href="https://www.wigvan.com/recurso4/">aqui</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poemas de Alda Espírito Santo estão disponíveis <a href="https://www.wigvan.com/5poemasdealdaes/">aqui</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Objetivos da Aula:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Geral:</strong> Analisar a intersecção entre a produção literária de Alda do Espírito Santo e o processo de libertação nacional de São Tomé e Príncipe.</li>



<li><strong>Específicos:</strong>
<ul class="wp-block-list">
<li>Contextualizar o sistema de exploração das roças e a transição do regime escravocrata para o trabalho sob &#8220;contrato&#8221;.</li>



<li>Identificar símbolos de resistência e a terminologia social específica (<em>forros</em>, <em>poisio</em>, <em>obó</em>) na poética de Alda.</li>



<li>Compreender o papel do Massacre de 1953 como catalisador da luta anticolonial e da unidade nacional.</li>
</ul>
</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<h2 class="wp-block-heading">2. Contextualização Histórica: Do Sistema de &#8220;Roças&#8221; à Independência</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para decodificar a carga emocional da obra, é imprescindível compreender o sistema colonial nas ilhas, caracterizado como um &#8220;Estado dentro de outro Estado&#8221;. A exploração não era apenas econômica, mas uma estrutura que visava o extermínio da dignidade humana. A poesia de Alda emerge da tensão entre os <em>forros</em> (descendentes de escravos libertos que se recusavam ao trabalho braçal nas roças) e o sistema de &#8220;contratados&#8221;, uma nova forma de escravidão mascarada pela legislação colonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ciclos Econômicos e Resistência:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Ciclo da Cana-de-açúcar (Sécs. XVI-XVIII):</strong> Marcado pela resistência persistente e pela &#8220;Guerra do Mato&#8221;, onde o <strong>Obó</strong> (as florestas densas das montanhas) servia como refúgio e sítio de guerrilha.</li>



<li><strong>Ciclo do Cacau e Café (Sécs. XIX-XX):</strong> Fase em que a exploração atinge cifras astronômicas através das grandes Companhias Coloniais e do trabalho forçado.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cronologia da Luta de Libertação:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>1530:</strong> Resistência de <strong>Amador</strong>, o marco inicial da luta contra o feudo colono.</li>



<li><strong>1853:</strong> Abolição da escravatura. A metrópole, agindo de forma sarcástica e &#8220;magnânima&#8221;, institui o &#8220;contrato&#8221;, ignorando que os escravos ilhéus precisavam de <strong>poisio</strong> (descanso/terra em repouso) e não de novas correntes.</li>



<li><strong>Fevereiro de 1953:</strong> <strong>Massacre de Batepá</strong>. O governador Carlos Gorgulho, utilizando um <strong>boato</strong> de conspiração como pretexto, desencadeia uma repressão violenta. A resposta popular é sintetizada no brado de resistência: <em>«Non na cá pô chunchintxi 53 bilá bi fá»</em> (Não deixaremos que o 53 aconteça de novo).</li>



<li><strong>1972:</strong> O Comitê de Libertação transforma-se em <strong>MLSTP</strong> (Movimento de Libertação de S. Tomé e Príncipe).</li>



<li><strong>12 de Julho de 1975:</strong> Proclamação da <strong>Independência Nacional</strong>, encerrando 504 anos de dominação.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">A transição da &#8220;reivindicação de melhorias&#8221; para a &#8220;luta pela libertação total&#8221; é o grande divisor de águas de 1953. O solo torna-se &#8220;sagrado&#8221; porque foi regado pelo sangue dos mártires, transformando a dor individual em uma sementeira trágica de consciência coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<h2 class="wp-block-heading">3. Análise Temática e Simbolismo Literário</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A poesia de Alda do Espírito Santo funciona como um cântico de mobilização. Ela opera uma transição ontológica: do &#8220;homem isolado&#8221; (típico da era de Costa Alegre) para o &#8220;homem coletivo&#8221;, que se reconhece no outro para derrubar a muralha colonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Símbolos do Texto e seus Significados Político-Sociais:</strong></p>



<figure class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td>Símbolo</td><td>Significado Político-Social</td></tr><tr><td><strong>Ossobó</strong></td><td>Pássaro cujo &#8220;canto angustiado&#8221; não é apenas incerteza, mas o premonitório prenúncio de um longo caminho de combate.</td></tr><tr><td><strong>Canoa</strong></td><td>Metáfora da unidade nacional. &#8220;Situar-se no mesmo lado da canoa&#8221; representa a superação das divisões coloniais em prol do esforço coletivo.</td></tr><tr><td><strong>Obó</strong></td><td>A floresta virgem; espaço geográfico que se transforma em símbolo de liberdade e resistência histórica (<em>Guerra do Mato</em>).</td></tr><tr><td><strong>Tubarões</strong></td><td>Os &#8220;donos do capital&#8221; e sugadores de homens; representação da elite financeira e do imperialismo ocidental.</td></tr><tr><td><strong>Marulhar das águas</strong></td><td>Testemunha dramática dos &#8220;porões da morte&#8221; e dos negros empilhados na rota atlântica.</td></tr></tbody></table></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A Mulher e a Dupla Colonização:</strong> Figuras como <strong>Mamã Catxina</strong> e a <strong>Mamã Africana</strong> são centrais na obra. Alda denuncia a &#8220;dupla colonização&#8221; da mulher — escrava doméstica e serva do sistema colonial — posicionando-as como vanguardas que &#8220;sacodem o papão colonial&#8221; e geram os filhos para a reconstrução da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Hino Nacional, transcrito no texto, serve como a síntese desse projeto. Ao clamar por &#8220;Independência Total&#8221;, a obra consagra o juramento de um povo que, em <strong>30 de setembro de 1975</strong>, nacionalizou <strong>90% das terras</strong>, iniciando a batalha pela soberania econômica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<h2 class="wp-block-heading">4. Estratégias de Didatização e Atividades Práticas</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para garantir o protagonismo estudantil, as atividades devem conectar a densidade histórica de São Tomé às urgências do presente, fomentando a empatia histórica e o pensamento crítico.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Atividade 1: Oficina de Desconstrução do Discurso Colonial:</strong> Os alunos devem analisar a frase do texto: <em>&#8220;A metrópole colonial é pródiga e magnânima&#8221;</em>. Através de uma análise comparativa, devem buscar no prefácio e nos poemas evidências que provem o sarcasmo da autora, contrastando a &#8220;generosidade&#8221; da lei de 1853 com a realidade brutal do trabalho por &#8220;contrato&#8221;.</li>



<li><strong>Atividade 2: Do Isolamento à Unidade (Escrita Criativa):</strong> Inspirados na metáfora da &#8220;canoa&#8221; e na transição do homem isolado para o coletivo, os alunos redigirão um &#8220;Poema-Mensagem&#8221; contemporâneo. O objetivo é identificar um &#8220;fermento da divisão&#8221; na sociedade atual e propor, poeticamente, uma forma de &#8220;situar todos do mesmo lado da canoa&#8221;.</li>



<li><strong>Atividade 3: Simulação Geopolítica &#8211; A Batalha Econômica:</strong> Organizar um debate sobre a nacionalização das terras em 30 de setembro de 1975. Metade da turma deve defender a soberania nacional e a &#8220;Batalha pela Produção&#8221;, enquanto a outra metade analisa os desafios diplomáticos e econômicos enfrentados pelo país após séculos de &#8220;bota de ferro&#8221; da metrópole.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">O impacto dessas atividades é o fortalecimento da consciência sobre o racismo estrutural, mostrando que a literatura é uma ferramenta de intervenção direta na realidade política e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<h2 class="wp-block-heading">5. Avaliação e Fechamento</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A avaliação deve ser contínua, valorizando a capacidade de articular fatos históricos com a subjetividade poética. O sucesso da aprendizagem será medido pela profundidade com que o aluno conecta o &#8220;solo sagrado&#8221; de Alda às lutas por dignidade no Atlântico Negro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Questões Dissertativas:</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li>Explique a importância do Massacre de Batepá (1953) para a criação de uma linguagem de unidade nacional, utilizando o conceito de &#8220;situar-se no mesmo lado da canoa&#8221;.</li>



<li>Como a obra de Alda do Espírito Santo desmistifica a ideia de que a abolição de 1853 trouxe liberdade real aos santomenses?</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Questões de Certo e Errado</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um teste, os estudantes devem examinar as alternativas e assinalar se correspondem às informações dadas pelo texto ou não. Depois da correção feita pelo docente, o estudante deverá analisar as alternativas que assinalou de forma equivocada e responder de forma discursiva, como se estivesse explicando o conteúdo para outra pessoa. Isso pode ser feito em forma de vídeo, caso seja viável.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li>A independência nacional de S. Tomé e Príncipe foi oficialmente proclamada em 12 de julho de 1975, após mais de cinco séculos de dominação colonial.</li>



<li>O Massacre de Fevereiro de 1953 é descrito como uma resposta colonial à resistência dos santomenses contra o regime de trabalho escravo nas roças.</li>



<li>Henry Nevinson, em sua obra de 1906, descreveu o sistema de trabalho nas roças de S. Tomé e Príncipe como um modelo exemplar de direitos trabalhistas.</li>



<li>A nacionalização de cerca de 90% das terras em S. Tomé e Príncipe ocorreu em 30 de setembro de 1975, oitenta dias após a independência.</li>



<li>Amílcar Cabral, citado no prefácio, era o líder direto do MLSTP (Movimento de Libertação de S. Tomé e Príncipe).</li>



<li>A figura de Amador é apresentada como o marco inicial da luta do povo santomense, tendo sua resistência começado por volta de 1530.</li>



<li>De acordo com o prefácio, as condições geográficas das ilhas foram ideais para o imediato desenvolvimento de uma luta armada de libertação.</li>



<li>A &#8216;Guerra do Mato&#8217; refere-se a um período de resistência persistente contra os colonos que durou cerca de trezentos anos.</li>



<li>Mamã Catxina é mencionada como uma representante das centenas de mulheres que exigiram o reconhecimento do MLSTP em setembro de 1974.</li>



<li>O termo &#8216;contrato&#8217; é usado no texto para descrever um acordo de trabalho justo e voluntário estabelecido após a abolição da escravatura em 1853.</li>



<li>A morte do militante Giovani, em 6 de setembro de 1974, é considerada um marco que determinou o processo irreversível para a independência.</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Critérios de Avaliação:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Precisão no uso da terminologia histórica e social (<em>forros</em>, <em>contrato</em>).</li>



<li>Capacidade de identificar a intertextualidade entre os poemas e o Hino Nacional.</li>



<li>Domínio da função social do poeta como vanguarda e testemunha da &#8220;jornada árdua e violenta&#8221;.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Conexão Final:</strong> Esta aula atende rigorosamente às diretrizes da <strong>Lei 10.639/03</strong>. Ao estudar Alda do Espírito Santo, não estamos apenas olhando para o &#8220;outro&#8221; em África; estamos reconhecendo as raízes de uma luta que é também nossa. O &#8220;Solo Sagrado&#8221; de São Tomé e o solo brasileiro estão unidos por um mar que, se outrora foi rota de morte, hoje é o caminho para a nossa comum libertação intelectual e política.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mapa Mental</h2>



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		<title>Prefácio de É NOSSO O SOLO SAGRADO DA TERRA &#8211; Alda Espírito Santo</title>
		<link>https://www.wigvan.com/recurso4/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[wigvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Feb 2026 04:56:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[planos de aula]]></category>
		<category><![CDATA[alda espírito santo]]></category>
		<category><![CDATA[amilcar cabral]]></category>
		<category><![CDATA[deolinda rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[escritoras africanas]]></category>
		<category><![CDATA[literatura de são tomé e príncipe]]></category>
		<category><![CDATA[literatura são-tomense]]></category>
		<category><![CDATA[poesia africana]]></category>
		<category><![CDATA[prefácio]]></category>
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<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="538" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/34884533._UY630_SR1200630_-1024x538.jpg" alt="capa do livro &quot;È nosso o solo sagrado da terra&quot; de Alda Espírito Santo" class="wp-image-2792" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/34884533._UY630_SR1200630_-1024x538.jpg 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/34884533._UY630_SR1200630_-300x158.jpg 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/34884533._UY630_SR1200630_-768x403.jpg 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/34884533._UY630_SR1200630_.jpg 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="289" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png" alt="" class="wp-image-2781" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-300x85.png 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-768x217.png 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1536x434.png 1536w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31.png 1674w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Cinco poemas de Alda Espírito Santo</title>
		<link>https://www.wigvan.com/5poemasdealdaes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[wigvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Feb 2026 04:32:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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		<category><![CDATA[amilcar cabral]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DEOLINDA RODRIGUES Encruzilhada dos caminhosNa vegetação frondosa da Terra MãeUm impasse permanenteNa saga cerradados nossos destinos.Limitação de fronteirasDo pensamentoLimitação da varandacerrada sobre o mar tropicalAmiga irmãPequenina na estreitezaDos meus horizontesPara ti, o meu canto de saudadeTrilhando as arenasardentes dum idealCaminhaste em frente do futuroPara vencer a brumaQue abafava a TerraTeu corpo caiu na arenaDa morte! [&#8230;]</p>
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<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="450" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-foto-Alfredo-900x450-1.jpg" alt="" class="wp-image-2788" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-foto-Alfredo-900x450-1.jpg 900w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-foto-Alfredo-900x450-1-300x150.jpg 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/02/Alda-da-Graca-do-Espirito-Santo-foto-Alfredo-900x450-1-768x384.jpg 768w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></figure>



<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center">DEOLINDA RODRIGUES</h2>
</blockquote>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph"><br>Encruzilhada dos caminhos<br>Na vegetação frondosa da Terra Mãe<br>Um impasse permanente<br>Na saga cerrada<br>dos nossos destinos.<br>Limitação de fronteiras<br>Do pensamento<br>Limitação da varanda<br>cerrada sobre o mar tropical<br>Amiga irmã<br>Pequenina na estreiteza<br>Dos meus horizontes<br>Para ti, o meu canto de saudade<br>Trilhando as arenas<br>ardentes dum ideal<br>Caminhaste em frente do futuro<br>Para vencer a bruma<br>Que abafava a Terra<br>Teu corpo caiu na arena<br>Da morte!</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">(Espírito Santo, Alda. 1978, pp. 113-114)</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center"><em>REQUIEM PARA AMÍLCAR CABRAL</em></h2>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">Chora terra bem amada<br>O teu filho bem amado<br>Morto fisicamente<br>Por balas assassinas<br>Guevara de África<br>te batizaram<br>Dias antes<br>Da cilada trágica<br>Na história da terra africana<br>Teu nome ímpar<br>apontará aos filhos<br>do país natal<br>a dignidade da tua vida<br>Cimentada com teu sangue<br>Cimentando com<br>o sacrifício da existência inteira<br>a esperança do futuro<br>Duma terra sem madrasta<br>As páginas do porvir<br>Contarão ao mundo<br>a força da tua personalidade dinâmica<br>ao serviço da tua inteligência<br>Canalizada<br>Para os arrozais<br>da parcela<br>do golfo enquistado<br>onde mãe Iva<br>te doou à terra<br>Não chores mãe Iva<br>A terra de África inteira<br>De pé<br>A teu lado<br>Saúda a figura gigante<br>do Grande Líder<br>Da África Ocidental<br>Terra bem amada<br>O sangue do herói<br>Será transfusão<br>Nos anais da tua história<br><br>Escrito em 20/ 01/73</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">(Espírito Santo, 1978, pp. 115-116). </p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center">ESTRELA DE ÁFRICA</h2>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">Um dia já, lá vão muitos anos<br>Eu no balbuciar da vida&#8230;<br>Tu, mais adulto, Luís<br>Mas desconhecedor das riquezas do nosso continente<br>Pois os horizontes eram densos c obscuros<br>Nada conhecíamos sobre a África milenária&#8230;<br>Tu sonhavas um porvir para o teu povo<br>Mas partias do zero, da incógnita do futuro &#8230;<br>Tu disseste eu lembro bem &#8230;<br>«Somos um povo sem história,<br>Sem filosofia própria …<br>Tudo temos de construir … »<br>Anos volvidos, tu já não estavas presente junto de nós<br>A tua vitalidade, o amor imenso pela tua Terra<br>A mensagem a transmitir pela tua vontade criadora<br>Tinha sido vencida pela morte cruel<br>No silêncio imenso da vida tombada &#8230;<br>E paradoxalmente descortinava-se diante de nós<br>A possibilidade de conhecermos as nossas lendas<br>A filosofia do nosso povo<br>o seu passado, uma civilização<br>Sustada pela ambição do invasor<br>Os nossos provérbios, as vozes<br>De Guillen, de Césaire, Diop<br>A luta pelo lugar ao sol<br>De Jean Jacques Roumain<br>O alvorecer de países novos<br>de Ãfrica.<br>A luta heróica dos Argelinos<br>Até à vitória final<br>Sékou TOUl&#8217;é, Ben BeBa, N&#8217;Krumah<br>Patrice Lumumba<br>Nomes gigantes da história do nosso povo<br>As lutas sangrentas do Congo<br>E a tragédia da Nigéria dividida &#8230;<br>Vitórias e desacertos, irmãos<br>Ao longo da história do nosso povo<br>Após as horas da escravidão<br>Seria belo o coro das mãos unidas<br>Mas o joio espalha-se sempre por entre a Seara<br>Ao longo da história de todos os povos.<br>E os nossos desacertos são semelhantes<br>Às tragédias de todos os povos do mundo na fase da construção<br>Entretanto, irmão, uma estrela desponta<br>lá longe &#8230;<br>A nós irmãos, resta-nos sermos os sacrificados<br>Um futuro rasga-se.<br>Que esse futuro seja a história<br>dos nossos filhos dignificados.<br>A tua vontade imensa de engrandecer o continente<br>Está patente no homem africano<br>Nas plagas onde afirma<br>A sua presença real<br>Na estrada da vitória plena<br>Ou na arena onde o sangue irmão<br>Rega a terra com o sangue<br>dos seus filhos mártires &#8230;<br>Repara irmão &#8230;<br>«Ao longo do caminho da vitória<br>Tombaram já num silêncio de arrepios<br>Muitos nomes a juntar a milhões<br>Tombados desde a era das galeras<br>E dos grilhões da escravidão<br>Aos mortos tombando dia a dia<br>Ao longo do continente em chamas<br>Teu nome eu o escrevo ao lado desses mártires<br>(Espírito Santo, 1978, pp. 67-69)</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center">A LEGÍTIMA DEFESA</h2>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">Para vós carrascos<br>O perdão não tem nome.<br>A justiça vai soar<br>O sangue das vidas caídas<br>Nos matos da morte<br>Clamando justiça<br>É a chama da humanidade<br>Cantando a esperança<br>Num mundo sem peias<br>Onde a liberdade<br>Ê a pátria dos homens</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">(Espírito Santo, 1978, p. 119)</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center">O CÂNTICO DO NOVO DIA</h2>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">Juntos cantaremos<br>O cântico dum novo dia,<br>A tua voz, bem pertinho<br>à minha,<br>Iremos desbravar a terra calcinada<br>Levando às braçadas<br>O barro dos nossos morros,<br>A verdura dos nossos campos densos,<br>A água corrente das nossas ribeiras,<br>Para as canoas de andim<br>Os braços ritmados<br>Das lavadeiras dos nossos rios,<br>Na esfrega pelo pão de cada dia<br>As vozes dos nossos irmãos<br>Das praias do «gandu»<br>Lutando com a caleima<br>Em dias de tornado,<br>Os coros dos meninos<br>Das escolas de mato<br>As vozes ritmadas do trabalho<br>Nos dias calcinantes<br>Para erguer do nada<br>A vida plena<br>Entoando a melodia<br>Dum mundo sem barreiras<br>Tangendo marimbas<br>N os rifles acossados<br>Desfazendo miragens.<br>Tu, meu irmão identificado<br>N a luta pelo pão de teus filhos<br>Vais erguer em rebelião ardente<br>A tua bandeira vitoriosa<br>Exigindo ao homem<br>Do outro lado da linha<br>O pão, o amor e a liberdade<br>Para todos os caminhos.<br>Nessa hora, meu irmão<br>Iremos cimentar os alicerces<br>Das nossas vidas<br>E erguer do braseiro, o nosso país<br>De África<br>Num ritmo de tam tans e quissanges<br>A vida, a paz e a liberdade<br>N a grande batucada<br>Da pátria libertada.</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">(Espírito Santo, 1978, pp. 87-88)</p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"><br>Retirados do livro &#8220;É Nosso o Solo Sagrado da Terra&#8221;. Lisboa: Ulmeiro, 1978.<br>Alda Neves da Graça do Espírito Santo (1926-2010), conhecida como Alda Espírito Santo, foi uma escritora e poetisa de São Tomé e Príncipe.</p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph">Bônus: Hino de São Tomé e Príncipe, cuja letra foi escrita por Alda Espírito Santo e musicada por Manuel dos Santos Barreto de Sousa e Almeida.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>





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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="289" src="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png" alt="" class="wp-image-2781" srcset="https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1024x289.png 1024w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-300x85.png 300w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-768x217.png 768w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31-1536x434.png 1536w, https://www.wigvan.com/wp-content/uploads/2026/01/4077B605-A996-4563-99FE-3A883C752F31.png 1674w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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		<title>Luísa, filha de Nica &#8211; conto de Orlanda Amarílis</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 22:37:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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		<category><![CDATA[conto cabo-verdiano]]></category>
		<category><![CDATA[conto de autoria feminina]]></category>
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		<category><![CDATA[conto de Orlanda Amarílis]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas. &#8220;Bocês tem mania de esconder nome de doenças. Anton veio de Santo Antão tão doente, tão magro, tão amarelo e toda a gente só sabe dizer ele tem pedras no fígado. Três dias estendido naquela cadeira de lona [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading"></h3>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph"><em>O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><br><br>&#8220;Bocês tem mania de esconder nome de doenças. Anton veio de Santo Antão tão doente, tão magro, tão amarelo e toda a gente só sabe dizer ele tem pedras no fígado. Três dias estendido naquela cadeira de lona aí do corredor com espasmos e sem forças para falar, e bocês a es¬conder, a esconder.&#8221;<br>Luísa brigava com a mãe. Parecia transtornada. Brigou, brigou.<br>&#8220;Esta mania tua, mamã. Meteste o Anton cá em casa e ainda nós tude vamos ficar tuberculosos cá dentro dês casa.&#8221;<br>Nica mãe de Luísa, não conseguia dizer duas seguidas. A filha não a deixava. Nica não era Ni ca. Era um autómato atrás da filha a tentar explicar-lhe, mas Luísa não a deixava falar.<br>&#8220;Credo, Luísa&#8221;, conseguiu articular, a língua entaramelada. Parecia uma terceira pessoa em cena. &#8220;Estas falas de gente tuberculosa e estas falas de pedras no fígado. Credo, Luísa!&#8221;<br>&#8220;Bocês tem mania de esconder doenças, mamã. Anton está tuberculoso, já disse. Ba espiai, anda! Ba espiai sê boca sempre aberta ta solve ar.&#8221; E apontava para a porta do corredor.<br>Esta conversa passava-se no quintal.<br>&#8220;Ah, mamã, Deus livre se Anton ouvisse esta conversa.&#8221; Luísa descaiu numa mansidão sem explicação. &#8220;Coitado, mesmo se ele estivesse a morrer, a gente tinha de lhe dizer de outro modo, não é? Ia melhorar ia passar, não é, mamã?&#8221;<br>Luísa abriu a cancela e entrou no corredor. A meio do corredor parou junto da cadeira de lona. &#8220;Amanhã levo-te ao hospital, levo-te ao Dr. Augusto, ouviste, Anton?&#8221;<br>Do quintal a voz da mãe chegou até ela. &#8220;Luísa, nha fidje, cala com esta conversa. Pelo amor de Deus, cala com esta conversa.&#8221;<br>Saíram de casa cedo ainda, pá mode sol na cabeça. Andavam um bocadinho, logo paravam para descansar. Andavam outro bocadinho, tornavam a parar. Anton gemia e punha a mão sobre o lugar do fígado. Era ali a dor. &#8220;Sossega Anton, não há-de ser nada.&#8221;<br>Nica ficara à porta a ver a filha a ir por ali adiante. Alguém vira-a a puxar a Luísa para casa. Por fim largou-a. Começou daí a esfregar a cara com as duas mãos. Esfregou, esfregou, bô dzê ela queria tirar a pele do rosto de tanto esfregar.<br>Quando dobrava a esquina para a Rua dos Descobrimentos pararam outra vez, Luísa viu Muna debruçada à janela.<br>Ah gente, tinha-me esquecido do baile para logo à noite. Minha cabeça, minha cabeça, eu fiquei de ir pedir um fato de Carnaval para ela. E de arranjar umas meias brancas para mim. E Anton agora.<br>&#8220;Vamos mais depressa, sim? Chegamos ao hospital e já não apanhamos consulta.&#8221;<br>Luísa levantou os olhos e alongou a vista até à janela da Nuna. Já lá não estava. Tinha puxado e trancado as persianas.<br>Anton começou a andar mais depressa mas teve de parar. &#8220;Desculpa, Luísa, eu não posso andar. A dor não me dá sossego. Vou estar por pouco.&#8221;<br>&#8220;Tontice, Anton. Anda, experimenta e vais ver.&#8221;<br>Oh, senhores. Nem uma ajuda há nesta terra para um desgraçado. Nem um carro, nem uma maca, nem duas tábuas para levar uma criatura ao hospital. Ele pode morrer pelo caminho, es¬tou a ver.<br>Anton suava. A camisa pegada ao corpo, a testa húmida, a cara sumida.<br>Ao passar pela janela da Nuna, Luísa esprei¬tou por entre as tabuinhas das persianas verde escuras. A vidraça também estava fechada e na¬da pôde descortinar para além da penumbra envolvente do quarto.<br>&#8220;Trouxeste o teu boné, Anton? O sol vai aquentar, tens de cobrir a cabeça.&#8221;<br>Anton tirou o boné do bolso do casaco de caqui.<br>&#8220;Está um tempo abafado! Vai chover.&#8221;<br>Pôs o boné e parou. &#8220;Vai chover.&#8221; Olhou à volta. &#8220;Vai chover.&#8221;<br>&#8220;Qual chover, Anton. Tu não conheces o ca¬lor de Soncente. Este calor é do suão. Há-de surdir um vento quente lá para a tarde. Vai-nos queimar e gretar a boca se não pusermos vaselina de roda da boca. E de noitinha o vento sopra¬rá mais forte. E hás-de ver a terra a entrar pelas gretas das janelas, as roupas, papéis e monturo hão-de fugir dos quintais e o vento vai indo enrodilhado neles a fugir por essas ruas, como meninos no jogo da reianata. Não é assim no Paul, Anton?&#8221;<br>&#8220;Não, no Paul quando faz muito calor e vira assim um tempinho esquisito, certo vamos ter chuva.&#8221;<br>Luísa deu um suspiro. &#8220;Já sei onde vou pedir umas meias brancas. Nair vai-me emprestar as suas meias de casamento. Vou-me mascarar de arlequim mercano. Chapéu alto, casaca de cetim preto sem mangas, short aos quadrados preto e branco, peitilho plissado de organdi branco, meias brancas, sapatos rasos pretos, uma bengala. E luvas brancas. Não, vou dar outro nome ao meu disfarce. Ah, já sei. Vai ser, preto quando tem vintém.&#8221;<br>&#8220;Vamos, Anton, temos de nos despachar.&#8221;<br>Ele respirava com dificuldade, (ou não respirava?) de uma maneira estramontada.<br>&#8220;Estou tão cansado, Luísa. Mão tenho forças. Ainda é muito longe?&#8221;<br>&#8220;Apoia-te no meu braço. Vamos andando na calma, sem pressa. Estás a ver aquela mulher li assim sentada na porta de D. Angélica? Quando passarmos por ela não digas nada. Nem bom dia, nem boas horas nem nada. Ela é um bocadinho deslocada da cabeça, mas é mansa.&#8221;<br>Luisa contava os passos. Sete, oito, ainda tenho de coser os quadrados de cetim branco sobre o short. E comprar borato para espalhar na sala do baile.<br>O braço de Anton pesava sobre o dela.<br>&#8220;Aquela mulher está atravessada no passeio, Luísa. Não vamos passar por cima dela, não?&#8221;<br>Uma frieza tornou-lhe conta do corpo. Fraco, sem forças, como poderia descer o passeio para se desviar da mulher?<br>A mesma frialdade sente-a Luísa dentro de si.<br>&#8220;Não tem importância. A gente passa e passa mesmo.&#8221;<br>Arrastam os sapatos pelas pedras num caminhar de quem não sabe andar.<br>Luísa parou junto da mulher. Esta levantou-se e abriu os braços. Luísa decidiu-se, estendeu as mãos e afastou-a.<br>&#8220;Com licença, nha Ninha. Rua é para a gente passar nela.&#8221;<br>&#8220;Quem disse outra coisa? Rua é para andar, porta é para passar, casa é para morar. E eu vou casar e vou levar uma coroa de urtigas.&#8221;<br>&#8220;Está bem, nha Ninha. Com licença.&#8221;<br>Antes de prosseguir Luísa franziu o nariz e torceu a boca. &#8220;Bocê anda com um cheirinho morrinhento, nha Ninha. É de andar por aí a roçar pelo chão. Bocê é gente-grande, bem podia ter mais juízo. E se bocê fosse mudar de roupa de baixo?&#8221;<br>Nha Ninha encostou-se na porta e sacudiu a saia com a mão, depois a saia de baixo, esfregou os pés um sobre o outro.<br>Anton começou a tossir. Segurava o peito com as duas mãos.<br>Luísa estava arrependida de o ter trazido sem ajuda de alguém, sem avisar o Dr. Augusto.<br>Ele não aguenta. Mesmo assim, com mais de meio caminho para andar não vou desistir. Adê, Deus livre. Andar para trás! Nem flaça! Andar para trás é andar para trás. Nem fôche. &#8220;Anton, vamos. É só mais um bocadinho.&#8221;<br>Ele estava sem cor. A cara tornara-se acinzentada. Fez menção de se vergar.<br>Vai sentar-se senhores. E agora?<br>Luísa olhou para os dois extremos da rua. Encostou-se à parede da casa do Sr. Inácio, e segurou o braço de Anton metido no dela.<br>As casas de traça pombalina, todas tinham as persianas fechadas. No primeiro andar em frente podia-se ver Nha Joaninha sentada à va¬randa numa cadeira de verga. Estava a tomar o fresco de palmanhã. Nha Joaninha endireitou-se na cadeira, pôs o queixo sobre o peitoril da varanda e espreitou a rua. Depois deixou-se estar como estive-ra até aí, mãos sobre o regaço, olhos parados, espírito descansado.<br>Nhã Ninha sentara-se na useira da porta. Saia descaída entre as pernas um pouco afastadas por via do calor, uma mão no queixo, olhou assim de baixo para a Luísa.<br>&#8220;Ocê está encostada na parede de uma ma¬neira. Parece como menina-de-vida.&#8221;<br>A mão de Anton tornou-se leve no seu braço. Luísa sentiu-se livre para apontar com o dedo para a velha. &#8220;Eles dzê que bocê é deslocada da cabeça. Que bocê é escloca. Mas quando quer insultar gente-home ou gente-mulher já não é es¬cloca, n&#8217;é devera?&#8221;<br>Nhã Ninha deu um risinho baixo como um sininho. &#8220;Inton, sou leve de cabeça, n&#8217;é? Inton, se uma criatura de Deus encosta sozinha como ocê, assim na parede, é ou não menina-de-vida? Logo pela manhã encostada na parede, ah gen¬te, ou ocê é frouxinha de cabeça ou então é menina-de-vida. Ou não?&#8221;<br>Luísa sentiu um calor pelo corpo todo. O sangue subiu-lhe à cabeça.<br>&#8220;Sozinha? Bocê não tem olhos na cara, Nha Ninha?&#8221;<br>&#8220;Sozinha, sim senhor. Não quer ser menina-de-vida, mas é como se fosse. E depois?&#8221;<br>O sininho do seu riso tocou e tremelicou outra vez.<br>Nhã Ninha é doida varrida. Não é de dar trela a esta conversa descosida.<br>Apesar do fogo pelo corpo todo como onda de sangue a querer saltar-lhe pela boca, Luísa tinha de resolver a sua vida e a de Anton.<br>Ele havia soltado o braço do dela.<br>&#8220;Anda, Anton, vamos. Nha Ninha é doida e dar-lhe troco é perder tempo e paciência.&#8221;<br>Voltou a cara para ele.<br>Oh coisa estranha. &#8220;Adê Anton, para onde foste? &#8220;Não pode ser. Anton nunca podia ter saído daqui. Ele nem consegue dar dois passos seguidos. Nem aguentava andar até ao fim da rua. Ainda são umas bem boas jardas. Não pode ser.<br>Luísa deu uma corrida até à esquina. Perscrutou a Rua de Lisboa. Credo, esta coisa é obra de feitiçaria. Nem cabe na minha cabeça. Ou estou avariada?<br>Apertou o passo até perto do Palácio. Anton não poderia ter passado do largo do Palácio. Deu-lhe vontade de começar a gritar, a berrar, até juntar povo. O seu coração era um tambor. Rangeu os dentes e retornou rua abaixo. Ia devagar, os olhos à toa. Entrou no pelourinho, subiu as escadas e ficou em frente ao talho.<br>&#8220;Oh gente, oh gente, isto é obra de feitiçaria!&#8221;<br>Apenas um som. As palavras nem saíam da boca seca e sem cor. Desceu as escadas do pelourinho aos dois degraus de cada vez.<br>Tanta mosca no pelourinho. Tanta mosca so¬bre as bananas, goiabas, mangas. Moscas a cirandarem nos sacos abertos de batata-doce, nos montinhos de mandioca ou nas pontas dos pedaços de cana.<br>Ao chegar à rua já não sabia para onde se voltar. Atrás dela ficou o conversar alto das mulheres, a zoada preguiçosa do pelourinho onde menino-pequenino furtava laranjas e pedia um tostão para um docinho de coco.<br>Andou, andou. Cortou por vielas e caminhos. Já não era Mindelo a sua terra. Já não eram as ruas da morada, de menininhas a saracotearem com samatá de pele de cobra da Guiné e vesti¬dos de cetim da casa dos indianos. Donde mocinhos a venderem contrabando, cigarros de Gold Flake, bandejas de alumínio, chocolates de bordo de vapor, margarina da Argentina, carne do Norte tão sabe e também colchões furtados a bordo dum noruega, dum sueca. Donde latas de jam e queijos da Holanda? Que terra é esta donde só se vê grama e uns pedrona e ela escorrega por um funil tão estreitinho, nem uma lagarta de feijão poderia lá passar?<br>Um vento empurra-a para fora do seu chão, para um espaço de ventona, de calhaus, de vulcões mortos, de poeira redemoinhada. Tapou o nariz com as duas mãos e caminhou de cabeça inclinada, corpo em arco, contra a tempestade sem chuva, sem trovões ou relâmpagos. E este desfragar de rochas desfeitas em pedregulhos sempre atrás dela. E ela sempre a fugir e as pe¬dras aos saltos, em passadas certas e fragoro-sas. São passos de canelinha. Canelinha é tão leve e tão corpo uno de pernas braços, cabelos, um todo canelinha, tíbia ou peróneo, tanto faz, é sempre canelinha.<br>Luísa dava passadas no ar, as pernas afastadas por treino olímpico tocavam cor-rectamente o chão. Podia competir com canelinha. Cada passada tinha o tamanho de um dia.<br>A ventona aqueceu, era um bafo de caldei¬rão, bafo de óleo de purgueira. Apertou o nariz de novo. Uma espuma de óleo esparramou-se à sua frente. Começou a catar sementes de pur¬gueira. Saltavam saltos de canelinha e ela agarrava-as e ia-as enfiando num espeto. Depois largava-as ao longo do caminho e chegava-lhes um fósforo. Repetiu esta operação um cento de vezes, ou sejam cem canelinhas de vezes. Cada canelinha seria da medida de uma fita cor de ferrugem.<br>Ia iluminando a superfície e escorregava em bicos de pés. Ensaiou um bailado e gargalhou. Andou, escorregou, deslizou de gatas. Atravessando colinas de espuma, sem-pre em bicos de pés no cocuruto de cada ciminho, trepou ondas de óleo de purgueira pastosas e mornas, agarrando-se a ramos de calabaceira como aranhas cinzentas entre a coisificação da vida sem vida.<br>Nunca mais chegava ao termo da jornada e nem já tinha conta do tempo. Ouviu longe, lá do outro lado, o eco do gargalhar de quando en¬saiou o bailado, este bailado de canelinha, do gargalhar viajeiro no tempo e a procurá-la outra vez.<br>O bom filho à casa torna, pensou. Ouves Luísa? Eu-Luísa, tu-Luísa, deixa as gargalhadas pródigas e despacha-te. Despacho-me Eu-tu-Luísa vamos. Vai e entra. Luísa correu, correu. Ouviu a trombeta e correu mais. Voou. Chegar a tempo antes dos portões se fecharem. A trombeta soava mais perto, os portões, ei-los. Ao morrer o último som da trombeta, os portões cerrar-se-iam para sempre. Reparem bem, para sempre. Voava, Luísa de cabelos soltos, seios virgens expostos, para amamentar quantos mil filhos viessem.<br>A trombeta soltou o último arpejo em agonia. Os portões fecharam-se sem pressa. Luísa gritou (uivou?) e foi de encontro aos batentes onde socou cem vezes com os punhos em força. Escorregou, as mãos desceram pela superfície do portão e deixou-se então embalar no mar de espuma de purgueira quente.<br>O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.<br>A mãe levantou-a do chão, hirta, lábios roxos, baba seca nos cantos feridos.<br>Nunca mais acordava. Chamou-a pelo nome, sacudiu-a. Luísa, Luísa, Luísa.<br>Arrastou-a pelo quintal até à porta do corredor. Deu um suspiro de alívio. Feliz-mente ninguém dera pela Luísa caída à porta de casa. Ainda bem. Na Soncente gostam de inventar coisas, logo haveriam de começar os murmúrios sobre nada, coisas de namorados, abertos, chicanas em barda e o nome de uma menina-nova sujado sem mais nem um.<br>Nica não sabe a conta das noites em branco à cabeceira da filha. E ela sem acordar. Dez, vinte anos, cem anos? Nica perdeu-lhes a conta.<br>Tatóia desconfiou do silêncio da casa de Ni¬ca e foi lá bater-lhe à janela. Nica abriu uma greta. Trazia um pano dobrado na testa, atado atrás da cabeça.<br>&#8220;Tenho uma dor de cabeça, Tatóia. Nem con¬sigo abrir os olhos.&#8221;<br>Os olhos de Nica pareciam dois papos de pregas.<br>&#8220;Ah, Nica, Nha irmom, essa coisa é aranha que te mijou na capela dos olhos. Deixa-me ver. Abre esta capela, fecha. Agora estoutra. Abre. Fecha. Foi aranha, foi. Não tens água fluídica? Se não tens eu trago-te uma garrafinha. Esta se¬mana mandei fluidifi-car quase cinco litros de água.&#8221;<br>Nica descansava a cabeça na persiana meio aberta e escutava de olhos fechados. Tatóia falava, ah como ela falava!<br>&#8220;Gosto mais de água fluidificada por nhô Henrique. Ele é um bom médium e só atrai bons elementos. Nos dias de sessões de limpeza psíquica levo sempre água para fluidificar. Apois, vou trazer-te água fluidica para pores uns pachos sobre a capela dos olhos. Vão ficar desinchados num rufo.&#8221;<br>Nica tossiu.<br>&#8220;Inton, Nica, não tenho visto a Luísa. Ela não está?&#8221;<br>Nica entrou em pânico. Tremia sem parar.<br>&#8220;Nica, Nha irmom, tu estás apoquentada.&#8221; Tatóia começou a magicar. Essas menininhas de agora começam a namorar, começam a ir para o escuro, depois são os abortos ou então menino novo nos braços. &#8220;Inton, Nica, nada de apoquen-tação.&#8221;<br>&#8220;Entra, Tatóia, entra. Vou abrir-te a porta.&#8221;<br>Nica cerrou as persianas, trancou as vidra¬ças e foi levantar o trinco da porta. &#8220;Anda, vem ver a Luísa. Deu-lhe uma coisa agoturdia pela manhã e até hoje ainda não acordou.&#8221; Fechou a porta e foi andando assim ao lado de Tatóia. &#8220;Deixa-me benzer mesmo. Padre, Filho, Espírito Santo. Passe de largo coisas de intentação.&#8221;<br>Tatóia estava perplexa e não exagerava nadinha. Seria aborto ou não? Ou teria sido seduzi¬da?<br>Nica levou-a ao quarto de Luísa. A cama encostada à parede, Luísa toda coberta, a cabeça tapada com uma colcha de algodão. Num dos cantos uma máquina de costura de manivela sobre uma mesa. Uma janela dava para um quintal sem serventia.<br>&#8220;Está assim há quantos dias! Não come, geme todo o tempo. Tenho-lhe metido umas colheres de caldo pela goela abaixo mas ela cospe tudo, trinca a colher com os dentes, esbraceja, um inferno.&#8221;<br>&#8220;Não chamaste o doutor, Nica?&#8221;<br>Sentada numa cadeira, as mãos de dedos entrelaçados, os polegares rodando um atrás do outro. Tatóia na sua frente, segue com muita atenção tudo quanto a amiga vinha contando.<br>&#8220;Com esta dor de cabeça, nem tenho tido tino para nada. É uma coisa diferente, não é doença pá doutor. Quando ela apareceu caída na porta de entrada, dias-há vinha dizendo umas conversas estranhas. Às duas por três eu também já estava enrodilhada na conversa. Eu sabia ser tudo invenção, mas ia na conversa.&#8221;<br>&#8220;Que espécie de conversa?&#8221;<br>Ah minha ansiedade de saber. Tatóia tem calma, tem paciência. Não estejas assim a levantar e a descer o teu peito raso. Esta é uma conversa de espíritos, é uma conversa de morto-vivo, de avassalamento, de coisas de intentação. Nada de perguntas. Despa-cha-te, Tatóia, vai para casa, este lugar deve estar avassalado, não aqueças esta cadeira de palhinha onde estás sentada. Ainda os espíritos podem cangar em ti.<br>Nica começou a soluçar. &#8220;Ah gente, ela só falava de Anton. Anton pra cima, Anton &#8216;para bai¬o, e quando eu adiantava para dizer qualquer coisa, sim, porque eu tinha de dizer alguma coisa, ela cortava logologo a conversa. Brigava comigo, Tatóia. Ia fazer assim, ia fazer assado. Foram mais de quantos dias de afronta. Mas eu sabia, Tatóia, e tu também sabes, Anton, nosso primo de Santo Antão, lá da Ribeira de Paul, morreu dias-há no mundo, nem Luísa ainda tinha nascido.&#8221;<br>&#8220;Credo, Nica, credo. Esta casa está avassalada. Vou já, Nica, vou já mandar um recado pâ senhor Henrique. Tens de fazer limpeza psíquica senão bocês tudo li dentro vão ficar doidas varridas. E ela, Nica, precisa de uma boa surra de cavalo-marinho, Nica.&#8221;<br>O quarto escureceu. Ou és tu, Tatóia, cega sem mais nem quê? Bolinhas de terra atiradas contra a parede, desfaziam-se espalhando-se pelo chão. A colcha estava toda pintalgada. Pareciam espirros de lama. Nica agarrou a filha e sacudiu-a. Luísa era toda convulsões e ranger de dentes.<br>Tatóia fugiu pelo corredor, a bater no peito e a chamar-se Tatóia, Tatóia, Tatóia!<br>Bolinhas de lama choviam-lhe em cima. &#8220;Senhores, credo! Passe de largo os maus elementos.&#8221; As mãos batem com vigor no peito, &#8220;Tatóia, Tatóia, Tatóia!&#8221; (não fossem os espíritos cangar nela também), a voz acompanha esta histeria.<br><br>Carnaval de 77</p>



<p class="wp-block-paragraph">Orlanda Amarílis,&nbsp;<em>Ilhéu dos Pássaros</em></p>





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